segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Cérebro: segredos da mente




Novas tecnologias estão perto de esclarecer um dos maiores mistérios da biologia: o funcionamento efetivo do nosso cérebro

por Carl Zimmer

Van Wedeen afaga a barba grisalha e se debruça sobre a tela do computador, examinando uma cascata de arquivos. Estamos sentados em uma biblioteca sem janelas, rodeados por caixas lotadas de correspondência antiga, edições amassadas de publicações científicas e um velho projetor de slides, que ninguém teve coragem de jogar fora. “Espere um pouco. Vou levar um instante para achar o seu cérebro”, diz ele.
No disco rígido de Wedeen estão armazenados centenas de cérebros, sob a forma de imagens tridimensionais detalhadas feitas com macacos, ratos e seres humanos. Wedeen se prontificou a me conduzir em uma viagem pela minha própria cabeça. “Vamos visitar todos os pontos turísticos”, promete com um sorriso.
Essa é a minha segunda visita ao Centro Martinos de Imageamento Biomédico, em Boston. Na primeira vez, poucas semanas atrás, em uma sala de escaneamento, eu me deitei em uma plataforma, com a parte de trás da cabeça apoiada em uma caixa de plástico aberta. Um radiologista baixou um capacete branco de plástico sobre o meu rosto. Eu o fitei através de dois orifícios enquanto fixava bem o capacete com parafusos, de tal modo que as 96 antenas em miniatura ali instaladas ficassem perto o bastante do meu cérebro para captar as ondas de rádio que iria emitir. À medida que a plataforma deslizava para dentro da abertura cilíndrica do equipamento de ressonância magnética, o que me veio à lembrança foi o filme O Homem da Máscara de Ferro.
Os magnetos ao redor passaram a roncar e apitar. Durante uma hora, permaneci imóvel, de olhos fechados, tentando me acalmar e pensar em outras coisas. Não foi fácil. Para obter o máximo de resolução possível do aparelho, Wedeen e seus colegas projetaram o equipamento com espaço suficiente apenas para acomodar uma pessoa do meu tamanho. Para manter o pânico sob controle, passei a respirar com lentidão e me transportei para locais da minha memória. Acabei me lembrando de como uma vez eu havia levado a minha filha de 9 anos à escola em meio a montes de neve após uma tempestade.
Enquanto estava deitado, refleti sobre o fato de que todos esses pensamentos e emoções eram uma criação do pedaço de carne que pesava apenas 1,4 quilo, o objeto daquele estudo: o cérebro. Dele vinham o meu medo, transmitido por impulsos elétricos que convergiam para uma estrutura de tecido cerebral em forma de amêndoa, conhecida como amígdala, e também a reação tranquilizadora originada nas regiões do córtex frontal. A lembrança da caminhada com a minha filha era coordenada por uma dobra de neurônios em forma de cavalo-marinho, o hipocampo, que por sua vez reativou uma vasta rede de associações, as quais haviam sido originalmente ativadas quando tive de enfrentar aqueles montes de neve. Assim forma-se a memória.
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Imagem: Um engenheiro veste um capacete com sensores no Centro Martinos de Imageamento Biomédico, na cidade americana de Boston, parte de um equipamento de ressonância magnética do cérebro que consome quase tanta energia quanto um submarino nuclear. As antenas captam os sinais emitidos quando o campo magnético do aparelho excita as moléculas de água no cérebro. Computadores convertem esses dados em mapas do órgão.