terça-feira, 12 de abril de 2011

Atendimento nos hospitais públicos continua desumanizado


“A mortalidade materna continua a envergonhar-nos e a desnutrição continua a ser a causa da maioria das doenças da infância” – ministro da Saúde, Alexandre Manguele

Maputo (Canalmoz) – O acesso aos serviços de saúde pública continua repugnante no País, não obstante os apelos que têm sido feitos para que se humanize o atendimento aos cidadãos. O desespero e a frustração, originados pelo mau atendimento, são parte dos problemas que caracterizam o dia-a-dia dos cidadãos e dos profissionais da Saúde em diversos hospitais do País, admite o próprio ministro do pelouro.

Alexandre Manguele, que falava na abertura do 36.o Conselho Coordenador da Saúde, que decorre em Maputo até à próxima sexta-feira, disse almejar um estágio em que o cidadão ao chegar a um centro de saúde ou hospital tenha amparo, solidariedade e competência.

Entretanto, verifica-se na prática, que a relação entre os utentes e os profissionais da Saúde, não é salutar. O povo não só é mal atendido, como também é confrontado falta de higiene nos hospitais e desorganização.

O evento a decorrer subordina-se ao lema: “com o nosso povo façamos das unidades sanitárias um lugar acolhedor, seguro e de confiança”. O objectivo é, segundo afirmam os promotores do evento, procurar formas de reabilitar a dignidade e o prestígio das instituições de saúde.

O ministro não poupou críticas aos seus subalternos, sobretudo aos directores dos hospitais nacionais. Disse que o desespero do povo é tal que este não imagina sequer que o Estado colocou em cada hospital um dirigente para, em conjunto com sua equipa, estabelecer ordem.

Para tentar evitar as reclamações do povo, quando este detecta irregularidades os dirigentes escondem-se do povo. “O povo não conhece os directores dos hospitais. Não tem onde colocar as suas preocupações”. “Quando há problemas telefonam para o ministro”.

Todas as incompetências detectadas por cidadãos nas diferentes áreas da Saúde são imputadas ao Ministério da Saúde como órgão central, revela o sucessor de Ivo Garrido, que foi nomeado este ano para o cargo.

O cenário acima descrito, na óptica do ministro da Saúde, Alexandre Manguele, é sinal de que há muita fraqueza entre os médicos-chefes, directores provinciais e a sua autoridade não é reconhecida, pois ainda não conquistaram a confiança das pessoas para quem trabalham, o povo.

Manguele disse ainda que para contornarem estes problemas, cada dirigente de uma área específica da Saúde, no País, passa a ser avaliado e classificado de acordo com a opinião do público a respeito das suas funções. Tal avaliação irá conduzir a que um certo dirigente seja ou não demitido do cargo que ocupa, ameaçou. “Ouçam bem a rádio, televisão e leiam os jornais”, apelou. Para que ninguém seja surpreendido, acrescentou.

Manguele disse estar ciente das dificuldades que o Sistema Nacional de Saúde enfrenta, como a exiguidade de dinheiro. Todavia, isso não é motivo para que os utentes sejam maltratados nem para que se deixe os lugares hospitalares imundos, advertiu.

O ministro da Saúde disse reconhecer os avanços existentes na prestação de serviços de saúde como a redução contínua das taxas de mortalidade neonatal, infantil e infanto-juvenil, algo que é promissor para o alcance dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM). Contudo, entende que se pode fazer muito mais.

Manguele deseja que a falta de condições de trabalho como equipamento, consumíveis ou medicamentos seja ultrapassada. Enquanto isso, numa clara alusão ao caso de medicamentos recentemente encontrados fora do prazo num dos armazéns da Matola, ele afirma não ser admissível. “É falta de controlo e desorganização”, classificou.

Na sua radiografia à Saúde, o ministro Alexandre Manguele lembrou que os hospitais continuam superlotados de doentes e faltam medicamentos.

Mas também mencionou que os profissionais da Saúde trabalham em condições deficitárias, têm excesso de trabalho e auferem salários baixos.

Num outro contexto, Manguele disse, sem apontar números, que a mortalidade infantil continua elevada no País e a mortalidade materna tem estado “a envergonhar-nos”.

Admitiu que a prevalência da malária e da tuberculose também são preocupantes e que a desnutrição é, por sua vez, a causa da maioria das doenças da infância.(Emildo Sambo)

Imagem: supercronico.blogspot.com