domingo, 6 de dezembro de 2009

A gordura não era para cremes, era para ritos satânicos


Beatriz Jiménez Lima ELMUNDO.ES

O caso de “Os Pishtacos”, um bando presumivelmente responsável do assassinato no Valle del Huallaga de ao menos 60 campesinos para comercializar a sua gordura, custou o posto ao chefe da Direcção de Investigação Criminal da Polícia do Peru (Dirincri), Eusebio Félix Murga.

O “escândalo da gordura”, como se baptizou este tema, salpicou também o Ministro do Interior, Octavio Salazar, a quem depois de avaliar a informação da Dirincri, viu-se obrigado a admitir que a denúncia foi “sobredimensionada” pela polícia e colocou o seu cargo à disposição do presidente.

Este inverosímil caso, apresentado com fanfarra à imprensa em 18 de Novembro passado, foi qualificado como uma “cortina de fumo” depois que a polícia local e o Comissariado pela Paz do Alto Huallaga desmentiram a existência de 60 desaparecidos na zona.

Ademais, cirurgiões plásticos e a Associação Nacional de Perfumaria e Cosmética (Stanpa) de Espanha desmentiram que a gordura humana tenha utilidade para fins cosméticos.

Sem dúvida, o delegado da 57ª Esquadra Provincial Penal de Lima, Jorge Sanz Quiroz, quem esteve presente em todas as diligências e formalizou a denúncia, corroborou a El Mundo.es que segundo as análises de laboratório realizadas a uma das amostras tratava-se de gordura humana pertencente a um indivíduo do sexo masculino.

As suas declarações trazem novos dados ao confuso caso, ao assegurar que os capturados declararam sem nenhum tipo de coacção que a gordura era vendida a “chamanes” ou bruxos para elaborar velas utilizadas em rituais satânicos.

Ainda que o delegado admitiu que o caso foi sobredimensionado pela polícia ao afirmar que as vítimas ascenderiam a 60 e que a gordura era vendida à Europa para a elaboração de cosméticos, assegurou taxativamente que “ haver vítimas, há vítimas”.

“Eles referiram que vendiam a gordura para fazer velas para ritos satânicos”, declarou. “A polícia disse na conferência de imprensa que era para cosméticos. Que seja para cosméticos ou para bruxos exige uma investigação mas nós abrimos o processo por homicídio com fins de lucro.”
'Pishtacos ou não, são homicídios

Foi a Polícia e não a Procuradoria que baptizou os capturados como “O Bando dos Pishtacos del Huallaga”, em referência à lenda ancestral andina de seres que matam para extraírem a gordura das suas vítimas.

“Pishtacos ou não, o que aqui há são homicídios com fins de lucro”, disse Jorge Sanz Quiroz. “Estas pessoas actuavam pelo lucro. Eles de motu proprio confessaram e nos levaram a sítios inóspitos onde encontrámos os restos humanos.”

O titular da 57ª Delegacia de Lima detalhou que na mesma fossa onde se encontrou a cabeça e o tórax de até agora a única vítima identificada, Abel Matos (27), encontraram outros esqueletos antigos todavia por identificar. Também assegurou, segundo as declarações dadas pelos detidos, que os capturados andavam há vários anos extraindo a gordura das suas vítimas.

Pela sua parte, o delegado adjunto deste processo, Tulio Roberto Ysla Almonacid, detalhou que buscam os restos das presumíveis vítimas em comunidades campesinas da região de Huánuco como Huancapallac y Pillao.
O Delegado continuará com as investigações

O Delegado Jorge Sanz assegura que durante os interrogatórios policiais, gravados em vídeo, esteve presente tanto ele como os advogados de defesa e que os suspeitos confessaram os factos sem nenhum tipo de coacção.

“Eles livremente levaram-nos ao lugar onde foram enterrados os cadáveres. Pela antiguidade destes esqueletos haveria que ver de quem são. O cabecilha desta organização, todavia prófugo, terá muito que dizer à justiça do porquê que o fazia. Eles manifestaram que era para a venda a bruxos. Inclusos falam dos italianos, cujas identidades estão em processo de identificação e debaixo do segredo de justiça”.

Frente à destituição do Chefe da Dirincri e à investigação interna aos oficiais da polícia encarregues do caso, o Delegado mostrou-se preocupado e pediu que não se engavete o tema.

“Agora com quem vamos trabalhar?”, perguntou-se. “Nós prosseguiremos fazendo requerimentos e trabalharemos com o novo director da Dirincri. Estes crimes terão que investigar-se porque é obrigação do Ministério Público e da Polícia. Que coincida ou não com a lenda, é a margem”.

Imagem: Este é o lugar onde encontraram os restos das vítimas. Efe PNP