sábado, 18 de abril de 2009

A Genética dos Habsburgo


A endogamia acabou com os Áustrias
Os matrimónios aparentados durante gerações provocaram alterações genéticas
Carlos II sofreu essa situação em forma de diversas enfermidades como a hidropisia


MARÍA VALERIO
MADRIDE. - Carlos II, o Encantado, foi o último rei da dinastia dos Habsburgo que governou a Espana e a sua morte em 1700 deixou a passagem aos Borbons. Diz-se dele que era impotente (morreu sem descendência depois de dois matrimónios), ejaculador precoce, de constituição débil e curta estatura; padecia diarreias e vómitos frequentes e tinha aspecto de ancião quando morreu apenas com 39 anos. Investigadores galegos acabam de demonstrar que as relações de consanguinidade podem ser a causa da extinção da casa de Áustria e dos males do monarca.

A dinastia dos Habsburgo governou o nosso país entre 1516 e 1700. Precisamente o seu empenho nesses dois séculos para manter o poder no seio da família à base de matrimónios entre parentes directos pode ser a causa da sua desaparição; segundo explicam na revista 'PLoS ONE' investigadores da Universidade de Santiago de Compostela e a Fundação Pública Galega de Medicina Genómica.

Para o seu estudo, os geneticistas Gonzalo Álvarez e Francisco Ceballos e a doutora Celsa Quinteiro repassaram a árvore genealógica de mais de 3.000 indivíduos ao longo de 16 gerações; incluindo o próprio Carlos II, descendente de três gerações de avós com sete matrimónios consanguíneos (a maioria entre tios e sobrinhos ou primos carnais). O seu próprio pai, Filipe IV, casou-se com a sua sobrinha carnal Mariana; filha do matrimónio composto por Fernando III e a sua prima Maria Ana.

Para cada indivíduo, os investigadores calcularam um coeficiente de endogamia; um valor matemático que indica a probabilidade de que dois genes sejam idênticos pela descendência. Quer dizer, se uma pessoa herda uma cópia de cada gene do seu pai e outra da sua mãe; nos filhos de parentes próximos existe a probabilidade de que ambas as cópias herdadas sejam iguais.
Similar a um incesto

A árvore genealógica dos Áustrias, Carlos II (seguido próximo pelo seu avô paterno, Filipe III) foi o sujeito com um pior coeficiente de endogamia. "O rei tinha um coeficiente de 25%, que equivale ao que teria um individuo fruto dum incesto entre irmãos ou entre pais e filhos", explica Gonzalo Álvarez, que teve a ideia de indagar nesta questão enquanto preparava uma classe de genética evolutiva para os seus alunos de Santiago.

Esses 25% significam que uma quarta parte do seu genoma era homocigoto; quer dizer, "que as sequencias num cromossoma [o herdado do pai] e o outro [por via materna] eram idênticos". Esta circunstância já se havia relacionado até agora com a susceptibilidade de um indivíduo a padecer diversas enfermidades; "mas nunca havia visto nenhum caso com um índice tão elevado", explica o investigador, que insiste em que o seu trabalho só confirma desde o ponto de vista genético o que os historiadores já diziam há algum tempo.

De facto, Álvarez explica que ainda a endogamia é frequente entre tribos actuais de África e Ásia, como o foi também entre os egípcios e outras realezas europeias (como os Borbons), é difícil que alcançasse um índice de consanguinidade tão elevado como Carlos II. "Porque a sua é uma situação herdada depois dos matrimónios familiares que se sucederam durante gerações e gerações. É o que se chama uma consanguinidade remota".

Sabendo que essa homocigosis fazia-o muito susceptível a certas enfermidades hereditárias, a doutora Quinteiro repassou todas as manifestações clínicas do débil monarca (muitos delas através dos retratos que os melhores artistas da época deixaram dele) para tratar de dar com as patologias que poderiam estar por detrás dos seus padecimentos. "A deficiência de hormonas pituitárias e a acidose tubular renal, duas enfermidades causadas por genes recessivos, permitem-nos explicar mais de 90% dos sintomas que padecia Carlos II", explica Álvarez, "mas não deixa de ser algo especulativo. Uma hipótese".

A arte, aliada da genética neste caso, retratou vários dos infantes dos Áustrias (que sofriam uma mortalidade infantil maior que a média da sua época) cobertos de amuletos e símbolos de boa sorte para protegê-los dos maus espíritos. "Eles eram conscientes de que se passava algo e por isso tratavam de protegê-los desde meninos", conclui o professor.

EL MUNDO

Foto: Retrato de Carlos II realizado cerca de 1685 pelo pintor Juan Carreño de Miranda. (Foto: EL MUNDO )