quarta-feira, 1 de abril de 2009

Os enfermeiros ganham terreno aos médicos (2)


"Há uns quatrocentos fármacos que não necessitam prescrição", explica. "São os antipiréticos, calmantes, antiácidos, laxantes, apósitos, antiinflamatórios... Os enfermeiros podem ocupar-se perfeitamente de recomendar também todos os acessórios sanitários, para a incontinência, por exemplo. Por último, também podem ocupar-se do seguimento de certos tratamentos, em especial das enfermidades crónicas, em que os pacientes devem tomar fármacos para a hipertensão, a diabetes ou contra a coagulação do sangue", debaixo da supervisão do médico, como dizem quase todos os consultados.

A fórmula não é inédita. Dos 800.000 enfermeiros que há no Reino Unido, uns 50.000 já fazem receitas de certos medicamentos ou acessórios sanitários desde 1992. É o que se chama a prescrição suplementar. "Em tudo isto, em Espanha estamos muito atrasados. Tudo está inventado. Copiemos, por Deus, copiemos!", urge Ramón Gálvez, director gerente do Complexo Hospitalar de Toledo, que continua: "Não nos enredemos num debate ideológico médico/enfermeira. As novas tecnologias obrigam-nos a redefinir as funções dos profissionais da saúde. A questão é desenhar qual é a atenção sanitária que queremos e necessitamos para o século XXI".

Os documentos franceses, britânicos e canadenses com que Gálvez trabalha falam da necessidade de adaptar-se às novas circunstâncias que, em ocasiões, aumentam a pressão e colapsam os sistemas sanitários: os pacientes querem participar mais nos seus processos, demandam mais informação, necessitam profissionais que, ademais, sabem algo de psicologia para comunicar-lhes os seus diagnósticos, querem ter melhor estado de saúde e, sobretudo, envelheceram muito.

Para eles, o sistema espanhol de saúde dispõe de 199.123 médicos e de 237.775 enfermeiros. Ademais de serem insuficientes, as suas funções apenas evoluíram. E isso apesar de que a formação dos enfermeiros é hoje muito superior à que receberam os seus predecessores, que, em muitos casos, prepararam-se só para desenvolver um oficio pouco qualificado.

A professora de Economia da Saúde de Las Palmas, Beatriz González López-Valcárcel, é a autora de algumas das análises sobre a profissão sanitária que está manejando agora o Ministério da Saúde. "Eu creio que na atenção primária avançámos muito e as enfermeiras já não fazem as funções de meras secretárias", explica Beatriz González. "Mas poderão fazer muito mais. O problema é que nos custa muito mudar as coisas". É uma pena porque muitos médicos de hospital consideram que a enfermagem é um elemento chave da atenção clínica. E é uma pena porque na atenção primária, como assinalam os especialistas em medicina familiar, o trabalho da enfermagem também o é.

"Estamos potenciando trabalhar em equipas e aproveitar ao máximo o valor da enfermagem, que ademais de poder indicar certos medicamentos tem a capacidade de gerar fidelidade sanitária com os enfermos", explica o presidente dos médicos de família Luis Aguilera.

EL PAÍS