segunda-feira, 23 de março de 2009

Médico garante: quem ama não adoece


ENTREVISTA/Marco Aurélio Dias da Silva

O cardiologista Marco Aurélio Dias da Silva é enfático: "Quem ama não adoece". Segundo diz, hoje os médicos perderam o hábito de conversar com seus pacientes, e a figura do "médico de família" não deveria ter sido esquecida.

 - Como o senhor concluiu que quem ama não adoece?

 MARCO AURÉLIO DIAS DA SILVA - Observando o comportamento dos pacientes e lendo sobre o assunto, comecei a perceber que pacientes que chegavam com queixas no coração apresentavam um histórico que antecedia à doença. O problema cardíaco era nada mais do que uma forma de exteriorização e escape para o sofrimento.

 - Reflexo de carência afetiva?

 SILVA - O amor que me refiro não é o amor por uma pessoa, não é o erótico, nem o romântico. Estes são apenas aspectos do amor. Me refiro mais a um estado de espírito, paz interior. As pessoas precisam ser e estar otimistas, abertas para o mundo, de uma maneira geral, enfim, ter uma postura desarmada. Quem conseguir atingir este estágio consegue escapar de doenças graves.

 - Isso ocorre com crianças também?

 SILVA - A criança que não se sentiu amada tem isso no seu inconsciente. Para ela, isso ocorreu porque ela não presta. A criança se torna um ser humano divido entre o "eu" real e o ideal. Ou seja, o que gostaria de ser e o que tenta fingir que é.

 - Esta receita de saúde que você transmite seria o caminho da medicina moderna, ou seja, estimulando a criação de laços mais profundos de amor?

 SILVA - Eu não tenho dúvida que sim. Basta fazer uma distinção com quem ainda não está doente, preservando a felicidade. Só é feliz quem consegue amar. Acho que todo mundo deve perseguir a felicidade, e essa busca tem a ver com a revisão de valores. Isso é bem fácil no discurso, não na prática.

 - Como o senhor trabalha isso no seu consultório?

 SILVA - Eu procuro o contato humano mais próximo possível, inclusive do ponto de vista do contato físico. O que, na minha opinião, o ser humano mais necessita. Felizes são os veterinários que podem afagar seus pacientes sem repressão e sem ser mal interpretados. Durante a consulta também procuro detectar sintomas que podem revelar dores de amores, além de medir o grau de felicidade do paciente, de sua família, enfim saber se a doença vem como conseqüência de outro sofrimento.

 - Seria mais ou menos uma consulta como as que aconteciam antigamente, quando o médico tratava de várias gerações e sabia tudo o que se passava na família?

 

SILVA - O avanço tecnológico afasta cada vez mais o médico do objetivo maior que é a relação humana que o atendimento médico exige. São coisas simples, mas que não são postas em prática. Era exatamente o que o médico do passado fazia, isto é, deixar o paciente falar, pois é através de uma conversa que se pode extrair informações muito importantes dentro do contexto apresentado. Hoje, a maioria dos médicos tem uma visão mercantilista, quer prestígio, poder.

 - A falta de amor seria um fator externo ou interno para desencadear doenças?

 SILVA - No começo, na origem de tudo - quem não consegue amor, quem sabe que não foi amado - é externo, porque a rejeição vem de fora para dentro. Depois o processo é interno. A doença está ligada a muitos fatores, alguns difíceis de controlar. Volto a dizer que o aspecto emocional é extremamente importante, por isso merece atenção especial.

 - Que grau de desequilíbrio emocional poderia resultar em doenças?

 SILVA - O grau já é mais complicado medir. É difícil medir ou converter em números uma emoção. Posso medir enzimas, não tristeza. Não tem como quantificar o sentimento das pessoas.

 - O que é pior para o coração: o estresse, o sedentarismo ou a falta de amor?

 SILVA - A literatura médica diz que são três os principais fatores de risco para doenças coronarianas: hipertensão, fumo e colesterol elevado, em quarto lugar está o estresse. Para mim é a infelicidade que leva a esses fatores citados como desencadeadores. A infelicidade e o desamor estão, a meu ver, em primeiro lugar.

 - Especialista dizem que a depressão abre portas para muitas doenças, como é este processo no organismo das pessoas?

 SILVA - Principalmente para o câncer. Hoje já podemos contar com uma especialidade médica chamada psicoimunologia, que comprova com excelência que quando a pessoa está deprimida seu sistema imunológico de defesa também fica deprimido. Ela, então, abre as portas para doenças infecciosas em geral e para outras, como o câncer.

 - Muitas pessoas dizem ter uma vida absolutamente feliz e têm câncer. A doença pode ser originada em momentos de profunda tristeza?

 

SILVA - Será que foram ou são felizes mesmo? Quem tem câncer geralmente é uma pessoa muito boa, muito afável. Elas são tão boas, mas ninguém sabe como estão por dentro, como elas reprimem os seus sentimentos e passam isso para o exterior.

 - O mesmo pode acontecer com as pessoas que são frustradas profissionalmente?

 SILVA - Sem dúvida. O ambiente profissional é o lugar onde mais se reprime as emoções. É no trabalho que se vive as emoções mais fortes, não dá para simplesmente se ligar ou desligar, o trabalhador vive as emoções do emprego durante as 24 horas.

 - Qual conselho o senhor dá para que as pessoas melhorem suas vidas?

 SILVA - O primeiro passo é fazer uma revisão interior e de comportamento e se esforçarem para mudar o que está errado. Se for o caso, que recorram a um psicoterapeuta. É importante tentar entender que pedir ajuda de um profissional não é sinônimo de loucura ou fraqueza.

 http://www2.uol.com.br/JC/_1998/2806/br2806f.htm