segunda-feira, 30 de março de 2009

Morre Jade Goody depois de converter o seu cancro num 'show' mediático


Efe

Faleceu de madrugada na sua casa de Essex, segundo confirmou a sua família.
A jovem, de 27 anos, pretendia arrecadar dinheiro para os seus filhos.
Há um mês casou-se com o seu noivo numa cerimónia televisiva com garante êxito.

Eduardo Suárez em Londres
Actualizado domingo 22/03/2009 11:03 horas

O anúncio esta manhã em tom lúgubre do seu agente Max Clifford, mestre de cerimonias do circulo mediático dos seus últimos dias de vida. Jade Goody morreu no domingo de madrugada. O dia que aqui se celebra é o dia da mãe. Aconteceu-lhe com apenas 27 anos e na sua casa do condado de Essex, envolta no último recolhimento de intimidade e rodeada dos seus entes queridos.

A sua mãe Jockey Budden – analfabeta e ex-viciada na droga – acertou ao dizer aos repórteres: "Minha menina bonita está finalmente em paz". Assim esteve de certo modo nestes últimos dias, como estiveram todos os seus compromissos mediáticos. Goody apenas mencionava a morte e com a morte preferia estar em casa, longe da escravidão dos tubos e enfermeiras do Royal Marsden Hospital, no bairro de Chelsea.

O seu último trabalho mediático proporcionou-lhe o baptismo dos seus filhos, cuja exclusividade engordou as vendas da revista 'OK'. A próxima será um funeral que se prevê melodramático, multitudinário e prenhe de emotividade. "Ela queria que fosse uma grande celebração", disse ontem Max Clifford, "ao fim e ao cabo é a sua despedida de todo o mundo e ela é a primeira grande estrela da telerrealidade. Será um evento muito do estilo de Jade. Exactamente como ela queria que fosse".

Segundo Clifford, Jade falou recentemente com os seus filhos da gravidade do seu estado: "Sentou-se com eles e explicou-lhes que a mamã ia para o céu e que o céu é um lugar onde a gente que está enferma vai lá melhorar. Disse-lhes que quando olhassem para o céu e vissem uma estrela é a mamã que lhes está a olhar". A simplicidade da sua personalidade, a pureza, reflectidos também nas flores e nas mensagens que dezenas de desconhecidos deixaram esta manhã, ensolaravam as portas da sua casa.

Goody surgiu do nada faz sete anos, quando foi seleccionada para o programa 'Grande Irmão'. Não ganhou, mas o seu carácter entre rude e iletrado conectou inesperadamente com a audiência e outorgou-lhe o duvidoso privilégio de iniciar uma vida pública ao sair de casa. Assim foi como participou na edição para famosos do programa, onde a sua fama multiplicou-se depois de um episódio racista com uma das concorrentes A disputa provocou um incidente diplomático que requereu os bons ofícios de Gordon Brown, então ministro da Economia e de viajem pala Índia.

Não havia nada que cortasse as asas da imparável fama de Jade, que crescia directamente proporcional ao eco dos seus escândalos. Nunca lhe importou que não soubesse que o Rio de Janeiro era uma cidade ou que Cambridge não era um distrito de Londres. O público adorava as suas formas bruscas e a sua ignorância, como se olhasse num espelho deformado. Jade escreveu duas autobiografias, lançou o seu próprio perfume e abriu os seus próprios salões de beleza.

A sua ascensão imparável só foi freada pelo cancro que lhe diagnosticaram em Setembro do ano passado. Jade deixou a edição índia de 'Grande Irmão' para iniciar o tratamento e desde o primeiro momento assumiu com naturalidade a sua deterioração física. Primeiro em programas semanais e depois no final apoteótico que incluiu boda, banquete, baptismo e este final – que finalmente não será televisionado –. Tudo vendido e coreografado para maximizar o beneficio económico que os seus filhos disputarão, que quiçá tenham a educação que a sua mãe lhes negou mas que cresceram também num lugar tremendamente desestruturado.

"A família e os amigos queriam ter a intimidade final", dizia esta manhã a sua mãe. Uma petição que quiçá chega demasiado tarde.

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