sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Mistérios do cérebro. A inútil palavra


Como bom cientista, o professor Izquierdo gosta de desconfiar. Na mira, especialmente os testes para medição de coeficiente intelectual. Na verdade, o professor identifica o cérebro como uma enorme área de matas intocadas, onde ainda se escondem pequenas usinas de processamento de informações.

Fonte: http://www.estado.estadao.com.br/
edicao/especial/ciencia/cerebro

O funcionamento desses sistemas constitui-se em um enigma incapaz de ser decifrado pela trilha dos questionários. Izquierdo afirma que a palavra inteligência talvez já não seja útil, por não designar nenhuma função ou capacidade específica do cérebro. As habilidades de cada um seriam o imprevisível resultado do cruzamento de características hereditárias e de todos os fatores culturais e ambientais.

Estado: Em sua opinião, quais foram, nos últimos anos, os maiores avanços no estudo do cérebro?
Izquierdo: Posso dizer que são vários. Em primeiro lugar, a descoberta da estrutura e função da maioria dos receptores sinápticos importantes. Em segundo, o conhecimento detalhado da função sináptica, inclusive das alterações causadas pela experiência. Em seguida, o conhecimento funcional de várias vias nervosas importantes, principalmente as das percepções. Temos de destacar também a determinação de genes ligados a várias funções fisiológicas e em diferentes estados patológicos. Há também o desenvolvimento de várias drogas úteis e com poucos efeitos secundários para o tratamento de depressão, ansiedade, esquizofrenia e várias formas de epilepsia. Ainda temos de sublinhar o desenvolvimento, em psiquiatria e neurologia, de métodos de diagnóstico precisos para a localização de lesões ou disfunções cerebrais. Em nosso campo, demonstrou-se que existem vários tipos de memória, cada um com mecanismos neurais próprios.

Estado: Afirma-se hoje que a "inteligência emocional" é fator fundamental na avaliação de capacidades e habilidades humanas. Testes de aptidão são utilizados por escolas e empresas, em adição aos exames que verificam habilidades lógico-matemáticas. Pode-se acreditar na criação de um teste confiável, que de fato avalie as potencialidades do indivíduo?
Izquierdo - O termo inteligência emocional é pior ainda que o termo inteligência. Implica na adjetivação de um substantivo cujo significado não conhecemos. Os pesquisadores sérios nessa área não usam essa expressão. Ela provém do título de um "best seller" que é divertido e às vezes interessante de ler, mas não é um livro científico e está cheio de conjecturas e suposições apresentadas como se fossem coisas demonstradas. O que sim é importante, motivo de estudo e objeto de diversas formas de avaliação, é a participação das emoções na cognição, na memória ou no desempenho de uma forma geral. Há vários testes para medir isso, cujos resultados se expressam, às vezes, em termos de "coeficiente emocional". Esse coeficiente fornece uma melhor estimativa de desempenho futuro que o famigerado Q.I.. De pouco adianta contratar, numa empresa ou num time de futebol, um grande especialista em determinada área se a pessoa é agressiva e pouco sociável.

Estado: Herança genética ou educação. O que define a mente humana em termos de desempenho?
Izquierdo: Tanto a herança genética quanto a educação são importantes para o comportamento humano. É impossível saber em que proporção ambas influem na mente humana ou no desempenho. Deve variar muito de pessoa para pessoa. Veja o caso de Stephen Hanking, com mente 100 e desempenho zero. Ou o de Garrincha, quase o oposto. Em ambos os casos, tudo depende do que queiramos chamar mente e do que queiramos chamar desempenho.