quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Raparigas recorrem aos anabolizantes para aumentar coxas, seios e nádegas


Jovens do sexo feminino têm recorrido a várias clínicas e a uma residência no bairro Mártires de Kifangondo, em Luanda, para tomarem injecções que lhes permita acrescer partes do corpo, preferencialmente a coxa, seios e nádegas.

Dani Costa O PAÍS

O PAÍS apurou que um dos supostos técnicos que administra drogas às meninas é um conhecido porteiro de uma discoteca em Luanda, que tem realizado o trabalho numa residência na rua 15 do bairro acima mencionado.

A fonte que denunciou a actividade a este jornal confessou que nunca tomou a referida injecção, mas amigas suas passaram pela mão do milagreiro. Segundo ela, algum tempo depois as companheiras apresentavam uma outra configuração.

“São muitas as jovens que recorrem à casa dele. Ele não é enfermeiro, mas faz o trabalho. Diz-se que é prejudicial, mas a verdade é que as partes do corpo como a perna e nádegas dilatam mesmo”, contou a fonte, acrescentando que “o valor que ele cobra é inferior ao que solicitam nos implante de silicone no exterior”.

O uso de drogas para fortificar a musculatura deixou de ser exclusivo dos homens em Angola. As mulheres entraram no jogo para darem um outro visual a partes que consideram mais importantes que outras no corpo
Este jornal contactou o guarda da casa nocturna, cujo nome se omite por razões éticas, para saber se podia alterar algumas partes de uma funcionária desta casa. Ele retorquiu prontamente que a troco de 400 dólares norte-americanos poderia dar uma outra forma às coxas, seios e nádegas.

O ‘enfermeiro’ realçou que não possuí uma clínica para realizar o trabalho, mas sim um “sítio”.

“Depois de aumentar a bunda, ele aconselha as mulheres a frequentarem os ginásios para conformarem o corpo.

Assegurou que é uma injecção normal que poderei apanhar”, contou a jovem, que se fez passar por interessada, minutos após o contacto.

A fonte acredita que os anabolizantes são originários dos Estados Unidos da América e do Brasil, desconhecendo embora o nome dos mesmos, mas o porteiro não aceitou fornecer mais elementos por telefone.
‘Rabole’, o Durabolin

Na manhã de quarta-feira, 4, O PAÍS deslocou-se ao mercado dos Kwanzas, no município do Cazenga, onde ainda proliferam os vendedores de medicamentos, apesar da interdição feita pela Polícia Económica. Nesta praça, apurámos junto dos vendedores que jovens de várias idades procuram um outro medicamento conhecido como “Rabole” para alterarem a forma natural das pernas, nádegas e seios.

Na verdade, ‘Rabole’ é o nome pejorativo que atribuíram ao Durabolin, um medicamento que existe, tanto em comprimidos, como sob a forma injectável e supositórios.

“Mas as senhoras compram mais o supositório, porque os resultados são rápidos”, garantiu um enfermeiro que encontrámos no mercado. Uma dose do famoso ‘Rabole’ é composta por três ampolas, que devem ser administradas em dias alternados: ‘dia sim, dia não’, segundo explicações do técnico de Saúde. “Já há muitas pessoas a fazer isso. O corpo vai desenvolver-se, mas ela vai comer muito. O corpo não permanece assim durante oito ou nove meses”, alertou o nosso interlocutor. O enfermeiro, que garantiu ter injectado o medicamento em algumas pacientes, alertou que para a manutenção do corpo as meninas devem tomar a dose em cada 10 meses. Algumas efectuam a revisão num período mais curto, de seis em seis meses.

O médico José Luís explicou que existem muitos anabolizantes no mercado, entre os quais a Nandrolona, que é um esteróide anabolizante presente em pequenas quantidades no organismo humano, geralmente comercializado como DucaDurabolin e, em menor grau, como Durabolin.

Segundo o médico, “as curvas extremamente definidas, desenhadas com o auxílio de doses e mais doses de esteróides e hormonas masculinas, podem ser tão nocivas quanto a magreza exagerada difundida nas passareles ou até mesmo a obesidade mórbida que fica escondida em casa. Mais uma vez os médicos alertam as mulheres que correm muitos riscos em nome da vaidade”.

José Luís disse também que o Departamento Internacional de Controle de Narcóticos, ligado à Organização das Nações Unidas, divulgou um relatório sobre o uso abusivo de medicamentos, onde revela que a utilização de remédios controlados supera em número o consumo nocivo de heroína, ecstasy e cocaína.

“Ao lado das drogas para emagrecer e os analgésicos, os anabolizantes também foram citados como trampolim para o crescimento deste tipo”, revelou o nosso interlocutor.

Os anabolizantes usados de maneira errada e com fim exclusivamente estético também atacam o sistema reprodutivo da mulher: param de menstruar e podem ficar infertéis. No Brasil, por exemplo, os esteróides são a principal causa de morte na população feminina, segundo dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia.
‘É um esforço inútil contrariar a natureza’

O psicólogo e professor universitário Carlinhos Zassala considera que quando uma pessoa aceita aquilo que é, tem uma auto-estima elevada. Quando nega algumas partes do seu corpo tem uma auto-estima inferior.

“Com o aparecimento dos cirurgiões plásticos essa neurose desenvolveu-se bastante. O facto de as pessoas detestarem uma parte do seu corpo é um comportamento antigo, porque as pessoas gostariam de ver o nariz, as pernas, as nádegas ou os seios”, disse Zassala, alertando que não é bom contrariar tudo aquilo que foi criado pela natureza.

“Tentar contrariar a natureza é realizar um esforço inútil, porque as consequências fisiológicas como psicológicas são prejudiciais. Podíamos chamar a isso uma patologia social”, acrescentou o dirigente da Associação dos Psicólogos de Angola.

Em princípio, segundo o professor, as pessoas que mais sofrem de depreciação corporal e de baixa auto-estima são as mulheres. Mas, nos últimos tempos, tem-se verificado que um crescente número de homens entra na mesma onda.

Zassala alerta que as pessoas, antes de olharem para os resultados ilusórios, deviam apurar inicialmente as possíveis consequências, porque quando nascem as leis da genética definem como será o seu corpo no futuro, para poder manter o equilíbrio emocional e o funcionamento do seu organismo.

O psicólogo garante que se pode mudar os aspectos exteriores, mas não se altera os interiores, fruto da composição genética do organismo.

“Gosto muito de citar o exemplo de Michael Jackson, que à força de negar a sua natureza se tornou um ser anti-social e não sabemos qual foi o sofrimento que teve nos últimos dias. Por isso, não aconselho os jovens a actuar desta maneira, porque muda-se o aspecto externo que, na realidade, não existe de forma natural”, aconselhou Carlinhos Zassala, que, após lembrar que “o corpo é governado pela herança genética dos nossos pais”, se interroga: “modificandose essa herança, externamente podemos mudar de forma mas será que podemos alterar fisiologicamente o ordenamento que herdamos?”.

O professor da Universidade Agostinho Neto realçou que uma pessoa que altera partes do corpo dificilmente recupera a sua auto-estima. Pode haver algum progresso neste campo, mas de forma artificial na visão do docente.

Quando a pessoa altera uma parte do seu corpo, segundo o nosso interlocutor, poderá verificar que essas alterações não foram correctas e que existem outras áreas para ser modificadas.

Zassala revelou que uma pessoa nestas condições se torna ‘um ser artificial, que poderá ter consequências em termo de saúde física e mental’.

À medida que vai modificando o corpo aprofunda a própria neurose, que poderá conduzi-la até à fatalidade.

“Essas cirurgias podem trazer complicações no organismo, algumas doenças novas que dificilmente poderão encontrar cura”, acrescentou Zassala.

“Quem não tem auto-estima não ama a seu corpo e a si próprio. Se não ama a si próprio, dificilmente poderá amar o outro.

Só podemos amar o outro se nos amarmos a nos mesmos. Quando alguém se encontra perante essa situação o ideal será recorrer a um psicólogo clínico, para poder elevar o nível de auto-estima”, sugeriu o professor.

Lamentavelmente, o docente universitário garantiu que as pessoas em Angola não têm o hábito de contactar os psicólogos clínicos. Quando recorrem fazem comparações entre o trabalho destes e o dos médicos.