terça-feira, 23 de agosto de 2011

Faculdade de Medicina de Malanje


As segunda Jornadas Cientificas desta instituição de ensino espelham as necessidades de crescimento da faculdade

MÁRIO MAXINDE
MALANJE MAGAZINE. Publicação trimestral do Governo Provincial de Malanje ABR/JUN 2011 ANO I Nº 4
Quando se tem determinação e um objectivo bem definido, encontra-se a força necessária para ultrapassar todas as condições adversas. Mesmo vivendo momentos difíceis, que espelham aquilo que psicólogos e economistas denominam «crise de crescimento», a Faculdade de Medicina de Malanje, uma das três unidades que compõem a Universidade Lueji A’Nkonde da IV Região Académica de Angola, realiza entre os dias 18 e 21 de Julho as suas segundas Jornadas Cientificas.
Com apoio do Governo Provincial de Malanje e com o patrocínio de mais de duas dezenas de empresas públicas e privadas, nacionais e estrangeiras, durante cinco dias dezenas de professores e especialistas de alto nível irão discorrer sobre os mais diferentes assuntos subordinados ao tema indicadores de Saúde e Qualificação dos Futuros Profissionais da IV Região Académica.

Jornadas de ensino
A partir de 18 de Julho, serão ministrados 25 cursos e será inaugurado o Centro de Informação de Medicamentos e Toxicologia. A partir do dia 21, data da abertura oficial das jornadas, estão programadas 37 conferências de carácter científico, com as quais se pretende transmitir em pouco tempo uma grande quantidade de conhecimentos essenciais para a formação dos jovens médicos e enfermeiros que estudam em Malanje e para os convidados de outras instituições.
É habitual que as instituições universitárias realizem seminários, debates e grandes encontros, para tratar temas científicos ou problemas existentes no âmbito da organização e métodos de ensino. Mas nas condições da província de Malanje, que só agora vem, literalmente, enquanto das cinzas, a realização de um segundo evento dessa magnitude em tão pouco tempo representa de facto um esforço verdadeiramente hercúleo. Com uma equipe dinâmica, efectivamente interessada no sucesso desta actividade, os convidados nem se darão conta do momento que esta instituição de ensino está a viver e dos caminhos difíceis que se adivinham nos próximos tempos, em virtude da sua necessidade de consolidação e crescimento como instituição científica.

Os problemas
Instalada em dois pavilhões, com amplos pátios exteriores, salas bem iluminadas e arejadas, todas de rés-do-chão, a Faculdade de Medicina de Malanje está a funcionar há cerca de três anos, mas ainda não foi oficialmente inaugurada.
A instituição recebe alunos de praticamente toda a região nordeste de Angola e até de Luanda. No total, estão matriculados 328 alunos, 204 no curso de medicina e 124 no de enfermagem. O corpo docente é constituído por 31 professores, a maioria (22) provenientes de Cuba que, entretanto, também trabalham no Hospital Provincial de Malanje e sem os quais não teria siso possível assegurar os cursos existentes.
Em visita à faculdade, logo à entrada, constatamos que as obras da construção do anfiteatro estão paralisadas, o que obriga, entre outras coisas, a realizar algumas actividades longe do campus universitário, como a que será realizada agora, com as jornadas científicas, no anfiteatro do Instituto Médio do Quéssua.
No que diz respeito às obras, constatamos que há pelo menos três pavilhões cujos trabalhos de reabilitação estão paralisados por falta de recursos e que, se não forem reiniciados imediatamente, deverão segundo a direcção da instituição, «dificultar a gestão dos espaços. Tendo em vista que está previsto o ingresso de mais estudantes no próximo ano lectivo».

Recursos insuficientes
Num dos primeiros pavilhões já ocupados, vemos claramente, através das grandes janelas de vidro, laboratórios aparentemente bem equipados, com microscópios e outros aparelhos de precisão. Mas de acordo com as informações transmitidas pelo decano da faculdade, Dr. Pedro Neto, nem todos estão devidamente apetrechados.
Numa conversa franca e aberta, como deve ser a regra num ambiente universitário, o decano explica-nos que os recursos destinados á sua unidade não são suficientes, por exemplo, para a compra de reagentes químicos e de modelos anatómicos, sobretudo tendo em vista a abertura dos novos cursos.
O Dr. Pedro Neto afirma que já recebeu garantias de que a faculdade irá receber, ainda neste semestre um laboratório de anatomia com tecnologia de ponta, mas revela também que é preciso melhorar os laboratórios de fisiologia e de microbiologia, sob pena de se vir a afectar, a curto prazo, a qualidade do ensino.

Falta de funcionários
A administração é outro ponto de estrangulamento que é preciso superar para consolidar o que já existe e conseguir crescer. A faculdade possui apenas cinco funcionários administrativos, dos quais dois vinculados em regime de contrato a termo certo, um número manifestamente insuficiente para o cumprimento das tarefas de atendimento aos estudantes.
A instituição também não dispõe de meios de transporte capazes de dar resposta às actividades administrativas inerentes ao seu funcionamento, recorrendo habitualmente a meios privados pessoais. Ou ao aluguer de viaturas.
Segundo o decano, perspectiva-se a possibilidade de fazer ingressar no quadro da faculdade pessoal docente angolano, no sentido de aperfeiçoar o desempenho e melhorar a qualidade de ensino, mas ainda não estão disponíveis para este fim.
As condições de acomodação dos docentes cubanos, sobre os quais recaiu durante estes três anos a nobre e ingente tarefa de formação dos jovens angolanos, são outro problema que preocupa a direcção da faculdade, ainda mais quando se espera para o próximo ano a chegada de mais professores, para o preenchimento cabal do quadro de ensino da faculdade.

Biblioteca inadequada
Em relação á biblioteca, o Dr. Pedro Neto reconhece que a estrutura já não corresponde às necessidades em relação ao número de estudantes matriculados.
Sabendo que está nos planos da direcção da instituição fazê-la evoluir para instituto de Ciências Biomédicas, instituindo, além dos cursos já existentes, o de ciências farmacêuticas, odontologia, fisioterapia, análises clínicas, electromedicina, genética médica e bioquímica, as carências apontadas tornam-se ainda mais prementes.
Uma tal mudança implicará necessariamente a preparação de planos curriculares de cursos da área das ciências biomédicas e exigirá recursos financeiros que não estão disponíveis neste momento.
Por todas estas razões, parece evidente que é preciso acelerar o mais rapidamente possível a resolução dos problemas actuais, para que a Faculdade de Medicina de Malanje possa vir a ser uma instituição de ensino de referência, com capacidade para formar profissionais de elevado nível e ajudar a resolver os problemas da saúde que afligem, e muito, a população de Angola.
Foto: Isaias Soares. Inscrições na Faculdade de Medicina de Malanje. voanews.com/portuguese