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sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Para curandeiros, desmaio de alunas é feitiçaria; para governo de Moçambique, histeria coletiva

12/10/2010
O Ministério da Saúde de Moçambique concluiu o relatório a respeito da série de desmaios de alunas de uma escola secundária no bairro do Zimpeto, na capital do país, Maputo. “A conclusão dos pesquisadores da saúde é que se tratou de um caso de histeria coletiva, como tantos que já houve em outras partes, e até mesmo aqui em Moçambique”, afirmou o ministro Ivo Garrido, em um de seus últimos atos à frente da pasta, antes de ser substituído junto com outros membros do primeiro escalão do governo.
Entre maio e junho deste ano, 71 alunas da Escola Quisse Mavota perderam os sentidos durante as aulas. Em um único dia, foram 25 casos. As primeiras hipóteses levantadas pela direção do colégio foram anemia ou desnutrição. Mas, desde o início, o Ministério da Saúde sustentava ser algo psicológico. A diretora da Seção de Saúde Mental, a psiquiatra Lídia Gouveia chamou, na época, de “causas emocionais”. “O quadro de medo e de ansiedade é muito marcante. O que elas têm, realmente, são manifestações de pânico”. Segundo a médica, em vários casos não houve sequer desmaio, mas apenas a perda momentânea dos sentidos.
Mas os moradores do bairro do Zimpeto têm outra explicação para o caso, mesmo depois da conclusão do Ministério da Saúde. “Penso que não é histeria nem emoção”, disse Otília Luis, mãe de uma aluna da Quisse Mavota. “Estou aqui neste bairro desde 1975 e antes tinha um cemitério onde hoje é a escola”, indicando que o problema poderia ter origem metafísica.
“Histeria coletiva, acho que não é”, disse Pedro Joaquim, aluno da escola. “Na minha opinião é algo ligado ao tradicional.”
“É difícil saber de onde vem essas coisas, mas, para mim, alguém que foi enterrado aqui quer se comunicar com o nosso mundo”, disse Maria Timane, que mora perto da escola. “A escola sempre vai ter problemas, porque é algo sobrenatural”, explicou em idioma xangana.
Na época dos desmaios, a comunidade exigiu que as autoridades fizessem uma cerimônia para “acalmar os espíritos do lugar”. A cerimônia, conhecida como mhamba ocorreu no dia 29 de maio. O Poder Público local comprou cabritos e bois para a celebração. Depois, houve uma festa com a vizinhança. Um curandeiro foi chamado para mediar os trabalhos, fato muito comum em Moçambique. O país tem mais de 30 mil médicos tradicionais no país – também chamados de curandeiros ou feiticeiros. Nas áreas mais afastadas, os curandeiros são a primeira resposta – quando não a única – para os problemas de saúde da população.
A força dos médicos tradicionais é tão grande na sociedade moçambicana que, no ano passado, o próprio Ministério da Saúde criou o Instituto de Medicina Tradicional para catalogar os curandeiros e os remédios usados por eles. Mesmo assim, para o porta-voz da Associação dos Médicos Tradicionais de Moçambique (Ametramo), Fernando Mathe, o relatório do Ministério da Saúde é válido, mas incompleto. “Reconhecemos o trabalho deles, mas eles não reconhecem o nosso”, afirmou. “Nós mandamos doentes para o hospital. Falta eles mandarem doentes deles para nós”.
Mathe concedeu a entrevista à Agência Brasil justamente no jardim do Hospital Central de Maputo, enquanto aguardava a mulher, que faz tratamento de um tumor. “Curandeiro trata as doenças do espírito”, disse ele. “O que é de hospital é de hospital”. Para o curandeiro, era preciso levar em conta que, depois do mhamba, os desmaios pararam na Quisse Mavota, fato confirmado pela comunidade.
O ministro Ivo Garrido foi substituído nesta terça-feira (12), juntos com os titulares de outras três pastas. No lugar de Garrido entrou Alexandre Manguele. No Ministério da Indústria e Comércio, Antônio Fernando saiu para a chegada de Armando Inronga, presidente da Associação Moçambicana de Economistas. Na Agricultura, Soares Nhaca deixou o cargo para José Pacheco, vindo da pasta do Interior. Para o lugar dele, foi empossado o então reitor da Academia de Ciências Policiais, Alberto Mondlane. Foi a primeira mudança ministerial em Moçambique depois dos protestos do início de setembro, contra o aumento do custo de vida, que deixaram 13 mortos.
http://www.diariodepernambuco.com.br/economia/nota.asp?materia=20101012181321&assunto=18&onde=Mundo