domingo, 17 de janeiro de 2010

'Futurologia' marxista. Profecias soviéticas para 2010


• Um artigo publicado em 1959 previa um país sem dinheiro nem alcoolismo
• Vaticinava que comer em restaurantes ou alugar helicópteros serim grátis
• Sibéria se converteria num celeiro e na Lua haveriam fábricas

Daniel Utrilla (Moscovo) ELMUNDO.ES


Clínicas marcianas especializadas em transplantes de órgãos? Restaurantes gratuitos abertos 24 horas? Sibéria convertida no celeiro do mundo? Telefones celulares? A profecia que o diário soviético Komsomolskaya Pravda lançou desde as suas páginas em 1959 sobre como seria o mundo em 2010 parece-se hoje mais ao discurso de Dom Quixote sobre 'A Idade de Ouro' que a uma novela de Júlio Verne.

Quando em 1957 a URSS pôs em órbita o sputnik, o primeiro satélite artificial, Moscovo sentiu-se na vanguarda do progresso mundial. Nikita Krushchov, o último romântico do comunismo que governou a URSS, prometeu nos anos 60 que o país alcançaria o umbral do comunismo em 20 anos. Para isso a panaceia soviética acabaria com a escassez e imporia una próspera igualdade.

Movido pela inércia triunfal do Kremlin, o diário Komsomolskaya Pravda lançou-se em 1959 a ler as estrelas em plena euforia cósmica e vaticinou em chave marxista como seria o mundo de hoje. Um mundo onde as máquinas trabalhariam no lugar dos homens e onde alugar carros ou helicópteros seria grátis.

Ademais de dar como facto que a lua seria vermelha em 1969 – acertou no ano mas a cor da bandeira conquistadora – o diário assegura que para 2010 o mundo funcionaria sem dinheiro (um golpe baixo ao capitalismo), que o alcoolismo e a criminalidade seriam coisas do passado, e que os restaurantes estariam sempre abertos e dispostos a servir à mesa gratuitamente a todo o mundo. Hoje abundam em Moscovo os sushi-bar e as cafetarias 24 horas, mas têm uns preços que resultam estratosféricos para as classes baixas.

Clínicas em Marte
O artigo, publicado em 31 de Dezembro de 1959 e recuperado agora pelo Corriere Della Sera, acerta, não obstante, quando afirma que os telefones seriam pequenos, portáteis e estariam providos de câmaras, ou quando diz que o homem viveria cerca de 100 anos.
O articulista soviético metido a futurólogo assegura que Moscovo estaria em 2010 cheia de limusinas gratuitas e adverte que para este ano em Marte existirão clínicas especializadas em transplantes de órgãos, enquanto que na Lua abundarão as fábricas metalúrgicas.

O vaticínio se transforma em ficção científica quando o diário aventura que em Março de 2010 o Instituto de Medicina Térmica logrará reanimar o cérebro de um mamute congelado da Sibéria, uma região que se descongelará graças ao aquecimento do solo por meio da tecnologia atómica.

Pese a seus erros, o prognóstico é menos catastrofista que os augúrios que lançou a vidente cega de origem búlgara Vanga, muito popular na era soviética. Segundo Vanga, em Novembro de 2010 começará a Terceira Guerra Mundial, que durará até 2014 e na qual jogarão um papel importante as armas nucleares e químicas. Não deixou nada sobre os restaurantes gratuitos.

Imagem: http://www.adorocinema.com.br/filmes/maquina-do-tempo/