segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A síndroma de Maria Antonieta


Um tipo de alopecia areata
O encanecimento do cabelo que sofreu esta rainha deu o nome a um transtorno
Segundo os peritos, sofria de um tipo determinado de alopecia areta, cuja origem é genética

LAURA TARDÓN ELMUNDO.ES


MADRID.- Dizem que a rainha consorte de França, Maria Antonieta da Áustria, despertou no dia da sua execução na guilhotina com o cabelo completamente branco. Realidade ou ficção? Os peritos explicam que, muito longe de tratar-se de um encanecimento repentino, a verdadeira responsável desta suposta mudança de cor foi um tipo muito concreto de alopecia areata, hoje, mais conhecido como sindroma de Maria Antonieta.

Trata-se de una falsa sensação de uma mudança de cor. O que ocorre é que " o cabelo cai de forma brusca. Primeiro, os mais escuros, porque aquelas cãs que já existiam antes são mais visíveis e isto dá maior sensação de canície repentina, argumenta Aurora Guerra, chefe de secção de Dermatologia do Hospital 12 de Outubro (Madrid).
Tal e como explica a dermatóloga, este tipo de alopecia não ocorre da noite à manhã, tarda umas semanas em produzir-se. Ainda a sua causa se desconhece, sabe-se que é uma enfermidade auto imune de base genética e, sem dúvida, o estresse desempenha um papel muito particular. "Apesar de não se ter demonstrado com provas objectivas, pode influir como efeito desencadeante e mesmo ao revés, que a queda de pelo cause estresse isto, no final, se converte num círculo vicioso".

No caso de Maria Antonieta, ademais da sua predisposição genética, provavelmente, a angústia e a tensão que sofreu durante os últimos meses da sua vida aceleraram a sua alopecia, pelo que "as células do sistema imune destruíram o folículo piloso", assinala Federico Cardona, cirurgião estético do Instituto Médico Assistencial (Madrid), quem ademais confirma que os períodos de estresse podem desencadear novos ataques, mas sempre naquelas pessoas que já tinham predisposição".
Segundo os peritos, o caso de Maria Antonieta não é o único. Uma nota publicada em 'Archives of Dermatology' menciona outros sucessos como o desta rainha consorte. Assim, por exemplo, relata que a Tomás Moro, humanista, político e escritor inglês, sucedeu-lhe o mesmo antes da sua execução na Torre de Londres em 1535.

Os autores responsáveis deste escrito também recordam que o mesmo ocorreu a alguns sobreviventes da II Guerra Mundial.
O certo é que a prevalência desta patologia na população em geral é baixa, "entre 0,2% e 0,3%, mas nas consultas, lá vemos com certa frequência, quiçá entre dois e três pacientes à semana", pontualiza Aurora Guerra.

A evolução nestes casos não é sempre a mesma e não se pode predizer. O doutor Cardona indica que "a maioria dos pacientes (70%-80%) recupera espontaneamente o cabelo com as suas características de sempre. O resto experimenta ataques periódicos, cada vez com mais remendos de calvície e mais grandes até se converter numa alopecia total (perda completa do coiro cabeludo) ou universal (perda do pelo de todo o corpo)", indica o doutor Cardona.
Para o tratamento da dita enfermidade, coincidem os especialistas, é importante ter em conta a sua forma clínica e estado geral da pessoa, indicando assim medicamentos que estimulam a imunidade (como difencipronas) ou que a deprimem (corticoides).

Retrato de Maria Antonieta. (Foto: ELMUNDO.ES