quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Haiti: os sobreviventes que desafiam a lógica


As operações de salvamento estão a chegar ao fim. A janela temporal está a fechar-se. Ainda assim, nas últimas horas foram encontradas pelo menos três pessoas com vida, uma das quais um menino de cinco anos.

21.01.2010 - 17:28 Por Susana Almeida Ribeiro PÚBLICO ÚLTIMA HORA

Saiu desidratado, mas ileso. No total já foram retiradas dos escombros 121 pessoas desde que as equipas internacionais chegaram ao terreno, um “recorde” mundial quando comparado com outros grandes sismos que atingiram o globo.
O jornalista da CNN Anderson Cooper acompanhou a história do pequeno rapaz, gravemente desidratado (CNN)

O corpo humano pode aguentar três a cinco dias sem ingerir líquidos, mas no Haiti essa média tem dilatado até extremos considerados impossíveis. Um menino de cinco anos foi resgatado, na noite passada, dos escombros do sismo que atingiu o Haiti, sem nenhum osso partido, desafiando toda a lógica de sobrevivência. Quando foi içado para o exterior, após oito dias debaixo de terra, abriu os braços e sorriu, perante uma plateia emocionada de socorristas.

O jornalista da CNN Anderson Cooper acompanhou a história do pequeno rapaz, gravemente desidratado e cujo corpo emanava já um cheiro semelhante ao álcool. Isto acontece quando, na ausência de nutrientes, o organismo começa a "comer-se" a si próprio, alimentando-se de gordura e tecido muscular.

Histórias com um final feliz, como esta, têm-se repetido nas últimas horas, embora a janela temporal para milagres se esteja a fechar.

Uma menina de onze anos, identificada como Mendji Bahina Sano, foi igualmente retirada dos escombros de sua casa, em Port au Prince, após ter passado oito dias soterrada. “É verdadeiramente um milagre. Ela voltou à vida; ela é abençoada”, frisou o cirurgião Dominique Jan, da ONG francesa La Chaîne de l’Espoir, que instalou um hospital de campanha na capital haitiana em parceria com a associação Alliance for International Medical Action.

Uma adolescente de 14 anos foi igualmente resgatada aos escombros nas últimas horas. Um olhar mais atento por entre o amontoado de destroços foi o suficiente para os familiares da jovem haitiana alertarem os serviços de emergência, relatam os diários espanhóis. Oito dias depois do potente sismo de 7.0 na escala de Richter, Estefani - que sofre de um problema mental desde nascença - foi resgatada por equipas espanholas. Encontrava-se em estado de choque e sofria de taquicardia, mas poderá ter alta dentro de um dia ou dois.

Ontem foram igualmente retiradas dos escombros pelo menos quatro mulheres: uma jovem de 25 anos, cuja casa se abateu sobre um supermercado, no rés-do-chão do edifício onde morava; uma idosa, de 69 anos, que permaneceu sete dias debaixo dos escombros da catedral de Port-au-Prince e duas estudantes universitárias, de 19 e 21 anos.

Estes pequenos milagres, que se têm vindo a suceder nas últimas horas, dão alento às equipas de socorro para continuarem a fazer o seu trabalho. Estão no terreno 52 equipas - cerca de 2000 pessoas -, que deambulam pelos escombros de hora a hora, à espera de ouvir um ruído, um lamento, um pedido de ajuda. Mas à beira de se completarem nove dias após a tragédia, as hipóteses vão diminuindo a cada minuto que passa.

Apesar de tudo, são conhecidas histórias de sobrevivência que ultrapassam os dez dias - há até o caso extraordinário de uma mulher que foi retirada dos escombros de sua casa após incríveis dois meses de espera por socorro, no Paquistão, embora tivesse ingerido alguns alimentos e bebido água da chuva -, mas nestes casos os sobreviventes conseguem, de uma maneira ou de outra, ingerir alguma espécie de líquidos. Muitas vezes a própria urina.

“As equipas ainda estão no local e continuam a procurar sobreviventes”, explicou hoje à AFP a porta-voz do Gabinete de Coordenação para os Assuntos Humanitários da ONU, a partir de Genebra, Elisabeth Byrs.

“Nenhuma pista está a ser negligenciada e os socorristas estão a trabalhar tanto no oitavo dia como no primeiro. O esforço nunca abrandou”, acrescentou a mesma porta-voz.

Quando é que as buscas serão dadas por terminadas? De acordo com Elisabeth Byrs essa decisão está nas mãos das autoridades locais e de peritos internacionais. Depois do fim das buscas, será praticamente impossível voltar a encontrar sobreviventes. Nessa altura as máquinas entram no terreno e começam a retirar o entulho e a alisar os solos.

De qualquer forma, o trabalho levado a cabo pelas equipas de socorro tem sido extraordinário até agora. Desde que os socorristas internacionais chegaram ao país já foi possível recuperar 121 pessoas dos escombros, o que constitui um “recorde” quando comparado com outros grandes sismos ocorridos noutras partes do globo, assegurou a mesma porta-voz, citada pela AFP.

De acordo com dados divulgados ontem pela ONU, o sismo da passada semana provocou a morte a 75 mil pessoas e deixou outras 250 mil feridas. Um milhão de pessoas ficou sem casa. A ONU estima ainda que cerca de três milhões de pessoas irão precisar de ajuda humanitária urgente.