sábado, 13 de fevereiro de 2010

A neurologia na arte. O homem não era o objetivo da arte, e muito menos o homem doente.


Na Idade Média (séculos V a XV) a pintura não evocou o mundo real ou as emoções humanas, limitando-se à reprodução de ícones estereotipados. O artista medieval trabalhava valendo-se do exemplo, isto é, a partir da fórmula e do esquema vigentes, não atingindo a vida diretamente nem se inspirando nela.

Sebastião Gusmão. Eric Morato e Elizabeth Regina Comini Frota
http://www.sbhm.org.br/index.asp?p=noticias&codigo=94

Durante este período, os homens preocuparam-se essencialmente com os problemas espirituais e teológicos, desinteressando-se da arte e da ciência até o ponto de perder a própria noção de humano. A escolástica foi o resultado natural desta perspectiva contraria à experiência, na qual os dados observados deviam ser coerentes com as verdades previamente assumidas. A medicina se contentou em reproduzir os conceitos de Galeno. O homem não era o objetivo da arte, e muito menos o homem doente.

RENASCIMENTO
O Renascimento significou uma revolução na Europa e no mundo ao fim da Idade Média e advento dos Tempos Modernos. As novas concepções do mundo e do universo contrapunham os avanços científicos às crenças de parte da Igreja, agarrada ainda ao mundo medieval. A sociedade do Renascimento estava mergulhada num turbilhão de novas concepções, motivadas em parte pela substituição do conhecimento dogmático pelo científico. Os homens da modernidade trilhavam o caminho do racionalismo, que ganharia força nos séculos seguintes. Tudo tinha que ser explicado a partir da razão, e não da fé. Era preciso descobrir os mecanismos que mantinham os homens vivos, e para isso era preciso estudar profundamente a anatomia humana. O foco de interesse deslocou-se do absoluto para a realidade do próprio homem e surge um novo humanismo em contraposição ao misticismo medieval. O mundo natural torna-se a mais alta autoridade.

Na Renascença volta a capacidade de observação e o prazer de retratar o belo. A arte religiosa afasta-se da representação clara da história sagrada para a representação da natureza da maneira mais fiel possível. O objetivo era a conquista da realidade. A arte passou a ser usada não só para contar a história sagrada de uma forma comovente, mas para refletir também um fragmento do mundo real. Este realismo da Renascença assinalou a ruptura com a Idade Média e explica a presença de representações médicas na obra dos grandes artistas deste período.

Um caso particular de tal representação é o sinal de Babinski (1857 – 1932). Este neurologista descreveu, em 1896, o reflexo cutâneo-plantar em extensão (sinal de Babinski), que indica, no indivíduo acima de dois anos de idade, lesão do trato corticospinal ou piramidal. Caracteriza-se por extensão lenta do hálux, enquanto no reflexo cutâneo-plantar normal ocorre flexão de todos os pododáctilos. Na criança menor de dois anos de idade a extensão do hálux está presente pelo fato de que nessa idade ainda não ocorreu a mielinização das vias piramidais.

Conee e Khoshbin (1978), em 1978, chamaram a atenção para a representação do sinal de Babinski na obra de Boticelli. Esta representação é evidenciada na obra de vários outros artistas do renascimento. Estes pintores renascentistas procuravam retratar com fidelidade a natureza e usavam modelos para figuras humanas para observar as verdadeiras proporções do corpo, o que explica a freqüente presença do sinal de Babinski nas representações de Cristo como criança. Sandro Botticelli (c 1445-1510), um dos maiores pintores do renascimento florentino, representou o reflexo de Babinski em sua Madona e a criança com os anjos, de 1468. Neste quadro, a Madonna parece eliciar o reflexo acariciando com o dedo a planta do pé da criança.

Serviço de Neurologia e Neurocirurgia do Hospital da Clínicas - UFMG
Serviço de Neurocirurgia do Hospital Luxemburgo – Belo Horizonte
Endereço para correspondência:
Sebastião Gusmão. R. Padre Rolim, 921/21 30130090 Belo Horizonte
e-mail: gusmao@medicina.ufmg.br

Imagem: O sinal de Babinski
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:BabinskiSign.jpg