quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A neurologia na arte. No quadro Charcot está demonstrando um caso de histeria para um grupo de médicos.


Goya (1746 – 1828) tornou-se um pioneiro tanto do romantismo quanto do realismo. Rejeitou as restrições impostas pelo neoclassicismo à escolha dos temas. Pintava reis, plebeus, loucos e soldados.

Sebastião Gusmão. Eric Morato e Elizabeth Regina Comini Frota
http://www.sbhm.org.br/index.asp?p=noticias&codigo=94

Retratava seus temas como os via, combinando detalhes realistas com sua própria interpretação do caráter das pessoas retratadas. Isso possibilitou ver déficit motor em dois de seus quadros. Goya pintou em 1797 seu amigo e pintor, Don Andres del Péral, do lado direito, minimizando o impacto desfigurante da paresia facial que afeta predominantemente a face inferior, sugerindo lesão do neurônio motor superior por acidente vascular cerebral (Smith, 1999). Em 1792, quando estava então com 46 anos, o próprio Goya ficou subitamente febril e hemiplégico à direita. Novo acidente vascular cerebral o atingiu aos 73 anos (1819), agravando sua hemiplegia. Pintou em 1820 Auto-retrato com o Dr. Arrieta em agradecimento ao médico que o tratou. Observa-se a movimentação da mão esquerda e a não direita caída e flácida (Cawthorne, 1962).

Na segunda metade do século 19 eclodiu a moderna medicina científica e a neurologia surgiu formalmente como uma especialidade em 1882, quando Charcot (1825 – 1893) assumiu como primeiro professor de neurologia na Faculdade de Medicina na Universidade de Paris. A partir de 1862, ele organizou um serviço de neurologia na Salpètrière, onde realizou descrições originais da semiologia e patologia de várias doenças neurológicas. Nas reuniões de terça-feira (Leçons de mardi), freqüentadas por grande número de discípulos e visitantes, eram apresentados e discutidos os casos clínicos.

André Brouillet (1857 – 1914), na Une leçon clinique à la Salpêtrière (1886) retrata uma destas reuniões. No quadro Charcot está demonstrando um caso de histeria para um grupo de médicos. Seu discípulo, Babinski, está mantendo a paciente. Paul Richer, médico e artista que realizou vários desenhos dos pacientes de Charcot, encontra-se sentado junto à mesa, à esquerda de Charcot. Este quadro constitui indispensável iconografia à história da neurologia e da psiquiatria. Oferece uma galeria de neurologistas que deram origem a vários epônimos: doença de Charcot, sinal de Babinski, síndrome de Parinaud, doença de Charcot-Marie, lei de Ribot, esclerose tuberosa de Bourneville, doença dos tics de Gilles de la Tourette. Entre os assistentes estrangeiros, encontra-se Freud, que em 1885 estudou com Charcot e traduziu as obras do mestre para o alemão. De retorno a Viena, Freud desenvolve suas próprias teorias sobre a histeria e cria a psicanálise, que exerceu grande influência sobre a psiquiatria e o pensamento do século XX (Signoret, 1983).

Paul Richer (1849 – 1933) era chefe de laboratório da Clinique des Maladies du Systéme Nerveux. Foi interno de Charcot, que observou seu talento de desenhista e o convidou para ilustrar os casos do serviço. Médico, desenhista e escultor, publicou juntamente com Charcot Démoniaques dans l’art, em 1877 e Les difformes et les maladies dans l’art, em 1889. No quadro Ataque epiléptico registra crise convulsiva de uma paciente da Salpètrière. Na tela Hemiespasmo glosso-labial, Richer registrou o primeiro caso desta enfermidade visto por Charcot. Poucos dias depois, em uma viagem a Veneza, Charcot encontrou em uma máscara grotesca da Igreja Santa Maria Formosa todos os caracteres desta deformação mórbida (Charcot, Richer, 1889).

Em 1817, James Parkinson (1755 – 1824) descreveu o quadro clínico caracterizado por tremor de repouso, fácies inexpressiva e marcha em pequenos passos que ele denominou shaking palsy ou paralysis agitans e Charcot denominou doença de Parkinson. Charcot a representou em pintura e Richer em escultura.

No final do século XIX, duas representações artísticas de trauma craniano são encontradas. Em Ivan, o Terrível, com seu filho Ivan (1885), Ilya Repin (1844 –1930) representa a cena ocorrida em 16-11-1581, quanto o primeiro Czar, Ivan IV, o Terrível (1530 – 1584), abraça seu filho, que ele matou com as próprias mãos. Em Os últimos sacramentos (1890), Rafael Romero de Torres (1865 –1898) retrata um pedreiro, vítima de traumatismo cranioencefálico por acidente de trabalho, recebendo a extrema-unção.

SÉCULO XX
A pintura mexicana atingiu seu ponto máximo na primeira metade do século 20. Frida Kahlo (1907–1954), considerada uma das maiores artistas mexicanas, envolveu-se, quando tinha 18 anos, em um sério acidente de ônibus e fraturou três vértebras, algumas costelas e a pelve. Tal episódio é retratado em Acidente (1936). Em 1944, pintou o quadro, A coluna fraturada que a mostra imobilizada por um colete. A coluna jônica na pintura representa sua coluna com múltiplas fraturas. Os pregos fincados no corpo representam a dor e o sofrimento da artista. Foi submetida a sete operações da coluna pelo Dr. Farill e, em agradecimento, pintou, em 1951, o quadro Auto-retrato com o retrato do Dr. Farill (1951).

Serviço de Neurologia e Neurocirurgia do Hospital da Clínicas - UFMG
Serviço de Neurocirurgia do Hospital Luxemburgo – Belo Horizonte
Endereço para correspondência:
Sebastião Gusmão. R. Padre Rolim, 921/21 30130090 Belo Horizonte
e-mail: gusmao@medicina.ufmg.br

Imagem: Detail from 'Traité des Tournois, Joustes, Carrousels, et autres Spectacles Publics' by Claude-François Menestrier, 1669. [source]

Menestrier was a Jesuit and antiquarian and director of many festivals held in honour of Louis XIV, which 'Traité..' documents.
http://bibliodyssey.blogspot.com/search?q=goya