quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A neurologia na arte. Na parte frontal da igreja, uma mulher dá à luz coelhos e um menino vomita pregos.


Na obra Credulidade, Supertição e Fanatismo (1762), de Hogarth (1697 - 1764), pintada um século após a publicação de Cerebri Anatome, evidencia a difusão do pensamento de Willis sobre o cérebro como substrato do pensamento e das emoções e sua alteração como responsável pela loucura. O pintor incluiu o cérebro em seu ataque alegórico à Igreja metodista. Um ministro metodista prega para o povo.

Sebastião Gusmão. Eric Morato e Elizabeth Regina Comini Frota
http://www.sbhm.org.br/index.asp?p=noticias&codigo=94

De uma de suas mãos estendidas pende uma bruxa amarrada a um pau e, de outra, um pequeno demônio. A congregação, um mar de demônios, vibra com um entusiasmo que lembra a loucura. Um ministro se prepara para o bote diante de uma rapariga, enfiando uma imagem pelo seu decote. Um judeu, durante o culto, mata piolhos entre os dedos, enquanto uma faca repousa sobre a sua Bíblia aberta. Na parte frontal da igreja, uma mulher dá à luz coelhos e um menino vomita pregos. Para enfatizar o pensamento do Iluminismo de que tudo isso são emblemas da mente fanática e irracional, Hogarth colocou um cérebro no canto inferior direito. É idêntico à ilustração feita por Wren um século antes. Junto ao cérebro encontra-se um termômetro, outro ícone da revolução científica, representando a avaliação objetiva triunfando sobre o juízo subjetivo. Ele não mede a temperatura, mas níveis de loucura.
O quadro de Rubens (1577 – 1640, pintor do barroco flamengo) Os milagres de St. Inácio de Loiola, de 1618, mostra um homem aparentemente apresentando crise convulsiva (Smith, 2005).

A Aula de anatomia do Dr. Tulp (1632), de Rembrandt (1606 – 1669), é o mais célebre de todos os quadros relacionados à medicina. A dissecação evidencia os músculos flexores dos dedos, no antebraço. Ao pé do cadáver encontra-se o tratado de anatomia de Vesalius. Outro quadro semelhante do mesmo autor e menos conhecido, a Aula de anatomia do Dr. Joan Deyman (1656) mostra uma das primeiras demonstrações de dissecção do cérebro. Deyman, sucessor do Dr. Tulp, também contratou Rembrandt para pintar sua lição de anatomia.

Seu rosto não ficou para a posteridade por meio deste quadro porque um incêndio, em 1723, danificou a obra. Para recuperar o quadro, dando-lhe estética, os especialistas em restauração foram obrigados a recortar a cabeça queimada do anatomista. Na tela vê-se a calota craniana retirada e na mão de um assistente, com exposição da convexidade dos hemisférios cerebrais.

A descida da cruz (1634), de Rembrandt, mostra a síncope de Maria, que na periferia direita do quadro é amparada.

Velazquez (1599-1660), o maior pintor do barroco espanhol, fixou, em telas imortais, os anões e bufões de Felipe IV, com todas suas deformidades. Na pintura As meninas ou A família de Felipe IV, vê-se à direita uma anã disforme, com grande cabeça, lembrando a hidrocefalia. Em Calabazas, mostra um jovem com pé caído bilateral e paralisia do músculo reto lateral esquerdo. Várias etiologias para este quadro são possíveis, entre as quais a atrofia muscular peroneal.

O quadro Pied-Bot ou nino cojo, de José de Ribera (1591 – 1652), considerado o maior pintor do barroco espanhol, depois de Velazquez, mostra um jovem com esta enfermidade, tendo o pé direito deformado e que toca o solo apenas pelos dedos; é portanto um pied-bot eqüino. A mão direita, que porta um chapéu, apresenta uma deformidade análoga àquela do pé, ainda que os dedos, colocados em perspectiva, desaparecem sob o bordo do chapéu. Assim, o conjunto sugere hemiplegia infantil direita, resultado de uma atrofia cerebral do hemisfério esquerdo. A expressão facial completa o quadro, revelando um desenvolvimento incompleto das faculdades intelectuais que acompanha ordinariamente esta afecção. O cartaz na não esquerda, onde se lê: Da mihi elimosinam propter amorem Dei, sugere que ele não pode falar, apresentando afasia por lesão do hemisfério cerebral esquerdo.

Serviço de Neurologia e Neurocirurgia do Hospital da Clínicas - UFMG
Serviço de Neurocirurgia do Hospital Luxemburgo – Belo Horizonte
Endereço para correspondência:
Sebastião Gusmão. R. Padre Rolim, 921/21 30130090 Belo Horizonte
e-mail: gusmao@medicina.ufmg.br

Imagem: http://www.rembrandtpainting.net/rmbrndt_1655-1669/deyman.htm