quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A neurologia na arte. A operação para extração da pedra da loucura – fundada sobre a crença de que o cérebro dos loucos continha uma pedra


Interessante relação entre doença neurológica e alteração da capacidade artística é a prosopagnosia (perda da faculdade de reconhecer as fisionomias) desenvolvida por Anton Raderscheidt (1892 – 1970), pintor expressionista alemão.

Sebastião Gusmão. Eric Morato e Elizabeth Regina Comini Frota
http://www.sbhm.org.br/index.asp?p=noticias&codigo=94

Este pintor alemão sofreu, em 1967, com a idade de 65 anos, acidente vascular encefálico com comprometimento do lobo parietal direito que determinou hemianopsia e hemiplegia esquerdas. Durante os meses que se seguiram à doença, Raderscheidt realizou mais de 80 auto-retratos baseando-se na imagem vista no espelho. Nos primeiros auto-retratos o artista pinta somente a metade do quadro que corresponde ao campo visual normal, deixando o resto da tela em branco. Na seqüência das pinturas observa-se a progressiva recuperação do campo visual que constitui exemplo da admirável constância do artista (Mir Fullana, 2005).

Andrew Wyeth (1917 –), em O mundo de Christina (1948) retrata Christina Olson, filha de amigos do pintor, acometida de poliomielite e impossibilitada de andar. No quadro é representada a atrofia das extremidades que caracteriza a doença.
Cada época criou um paradigma para o cérebro. Com o surgimento da eletrôncia e da informática, o computador passou a ser a melhor analogia para o cérebro. Esta analogia é representada no Reciprocal study de Henryk Berg, de 1927.
No início do século 20, graças a Cushing (1869 - 1939), a neurocirurgia firma-se com especialidade. Ela nasceu, como a neurologia de Charcot, sob o signo da arte, pois foi implantada por um artista. O talento artístico de Cushing está bem evidente nos vários desenhos de paisagens e de fatos de sua vida cotidiana e nas figuras para publicações.

No desenho de Cushing, Operação do gânglio de Gasser, de 1900, é mostrada a posição do gânglio de Gasser na base do crânio e sua relação com a abertura craniana, a artéria meníngea, e os três ramos do nervo trigêmeo. No desenho Área motora, de 1906, é exposta a área motora do cérebro de um homem com epilepsia focal secundária a ferida por bala na área da linguagem. O crânio pintado em água de cor, de data desconhecida, impressiona pela habilidade artística do fundador da neurocirurgia.

Apesar da neurocirurgia ser uma especialidade do século 20, trepanações (abertura intencional do crânio) foram realizadas desde o período neolítico eurasiático e na América pré-colombiana, principalmente no Peru incaico. Um tumi mostra claramente, pela representação plástica na ponta do cabo, o fim a que se destinava: fazer trepanações. Os crânios encontrados provam que os operados geralmente sobreviviam.

Os incas, do Peru, eram peritos nesta operação. Supõe-se que o objetivo era tratar a doença (epilepsia, loucura), permitindo que o espírito maligno saísse do corpo pelo orifício aberto na cabeça (Broca; Osler; Horsley). No quadro Trepanação inca, Robert Thom (1915-1979), pintor e ilustrador, especializado em reconstruir cenas históricas, representa um cirurgião peruano do século primeiro realizando trepanação. Em um de seus murais, Diego Ribera (1886 – 1957), esposo de Frida Kahlo, também representa trepanação inca.

A obra de Oppenheim, Nascimento de Atenas (1618), é a representação do primeiro procedimento neurocirúrgico conhecido, narrado na Teogonia de Hesíodo (séc. VIII a.C.). Zeus foi acometido de forte cefaléia e Hefesto, deus do fogo e da cirurgia, foi chamado para tratá-lo. Com uma machadada, abre o crânio de Zeus, de onde sai Atenas, deusa da sabedoria e da razão.

A operação para extração da pedra da loucura – fundada sobre a crença de que o cérebro dos loucos continha uma pedra, causa da instabilidade – consistia em praticar uma incisão na testa do paciente e, com a cumplicidade de um assistente, simular a extirpação de uma pedra. Esta cirurgia fazia parte da vida rotineira e da cultura holandesa da época e muitos artistas de renome dos séculos 16 e 17 – Bruegel, Bosch, Jan Steen, Téniers, Hals, Brouwer – pintaram quadros com o título Extirpação da pedra da loucura.

Serviço de Neurologia e Neurocirurgia do Hospital da Clínicas - UFMG
Serviço de Neurocirurgia do Hospital Luxemburgo – Belo Horizonte
Endereço para correspondência:
Sebastião Gusmão. R. Padre Rolim, 921/21 30130090 Belo Horizonte
e-mail: gusmao@medicina.ufmg.br

Imagem: A extração da pedra da loucura”, óleo sobre painel, 35 x 48 cm. Hieronymus Bosch
http://arttero.wordpress.com/2009/09/03/a-extracao-da-pedra-da-loucura”-oleo-sobre-painel-35-x-48-cm-hieronymus-bosch/