segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

A neurologia na arte. Explorou o corpo humano, dissecando mais de trinta cadáveres


Na obra de Rogier van der Weyden (1399 – 1464, A descida da Cruz, de 1435, é mostrada a síncope (perda temporária da consciência e da postura por diminuição da perfusão cerebral) de Maria, mãe de Jesus. Ela encontra-se caída ao solo e com a face pálida.

Sebastião Gusmão. Eric Morato e Elizabeth Regina Comini Frota
http://www.sbhm.org.br/index.asp?p=noticias&codigo=94

Em uma peça do século 15, na Igreja de St. Thomas, em Strasbourg, é retratada a paralisia facial ou paralisia de Bell.
Em A conversão de São Paulo , de Michelangelo (1475–1564) e A conversão de São Paulo, de Caravaggio (1573-1610), São Paulo é retratado no chão, ofuscado pela visão de Jesus, na rota de Damasco. Esta cena traduz o descrito em Atos 22,6: “De repente, uma grande luz que vinha do céu brilhou em volta de mim. Então caí no chão e ouvi uma voz que dizia: Saulo, Saulo! Por que você me persegue?” A experiência de Paulo foi atribuída a uma crise do lobo temporal com aura emocional que talvez tenha evoluído para generalização secundária, que foi assustadora e dramática, seguida de cegueira cortical pós-ictal (Landsborrough, 1987).

Em A transfiguração (1517), Rafael (1483–1520) representa concomitantemente dois episódios do Evangelho segundo São Mateus: a transfiguração de Jesus e a súplica de um homem para que seu filho seja curado da epilepsia. A transfiguração é apresentada no alto. Abaixo e a direita, um pai segura o filho que está apresentando crise de epilepsia, narrada no evangelho de Marcos (9:20): Ele caiu no chão e rolava, com a boca espumando. Esta crise de epilepsia chamou a atenção de célebres neurologistas, como Charles Bell e Charcot.

A ciência e a arte estiveram mais unidas no Renascimento do que em qualquer outro período da história. A Renascença viu surgir, no campo da arte, um novo dogma da teoria estética, segundo o qual uma obra de arte é uma representação direta e fiel dos fenômenos naturais. Essa concepção exigia que o artista se familiarizasse com a estrutura e as propriedades físicas dos fenômenos naturais a fim de retrata-los objetivamente. A arte torna-se científica. Leonardo da Vinci (1452 – 1519) foi o primeiro artista que praticou a anatomia além do ponto de vista puramente pictórico. Explorou o corpo humano, dissecando mais de trinta cadáveres. Experimentou técnicas para modelar cavidades de órgãos, que mais tarde seriam adotadas, e realizou dissecações representadas em mais de 750 desenhos. Destes, vários referem-se à estrutura do sistema nervoso. Sua maior contribuição para a anatomia do sistema nervoso foi a injeção de cera na cavidade ventricular de um boi, que constitui a primeira injeção anatômica. Tal procedimento lhe permitiu expor, em aproximadamente 1504, a anatomia dos ventrículos cerebrais com a forma que hoje conhecemos.

Michelangelo Buonarotti (1475 – 1564) passou pelo menos vinte anos adquirindo conhecimentos anatômicos por meio de dissecações que praticava principalmente no convento de Santo Espírito de Florença. A maior parte de seus desenhos anatômicos foi destruída ou queimada por ele mesmo. Meshberger (1990) apresentou interpretação, baseada na neuroanatomia, para A criação de Adão, de Michelangelo, a cena mais famosa e mais divulgada da Capela Sistina, na qual o Criador estende o dedo indicador, que quase toca a mão esquerda de Adão. Comparou a imagem em que o Criador está dentro de um manto esvoaçante e cercado de querubins com o corte sagital do crânio (e o cérebro nele contido) e mostrou a semelhança impressionante entre a representação pictórica e a peça anatômica.

O sulco do giro do cíngulo corresponde ao contorno que se inicia no quadril do anjo em frente ao Criador e continua ao longo dos ombros de Deus. A echarpe verde pendente corresponde à artéria vertebral em seu curso ascendente, curvando-se em torno do processo articular e fazendo contato com a superfície inferior da ponte, representada pelas costas do anjo que se estende lateralmente abaixo da figura do Criador. O quadril e a perna esquerda do anjo correspondem à medula espinhal. A haste e a hipófise são representadas pela perna e pelo pé do anjo na base da figura. A perna direita desse mesmo anjo está flexionada no quadril e no joelho. A coxa representa o nervo óptico; o joelho, o quiasma óptico transeccionado; e a perna, o trato óptico. Meshberger conclui o estudo afirmando que a intenção de Michelangelo foi de representar Deus fornecendo a Adão o intelecto.

Serviço de Neurologia e Neurocirurgia do Hospital da Clínicas - UFMG
Serviço de Neurocirurgia do Hospital Luxemburgo – Belo Horizonte
Endereço para correspondência:
Sebastião Gusmão. R. Padre Rolim, 921/21 30130090 Belo Horizonte
e-mail: gusmao@medicina.ufmg.br

Imagem:
http://www.romaviva.com/vaticano-castel-santangelo/michelangelo-pieta.jpg