segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

A neurologia na arte. Seriam poupadas de suas crises pelo período de um ano se conseguissem atravessar determinada ponte


No quadro de Gentile da Fabriano (1370 – 1427), A adoração dos magos, de 1423, observa-se o sinal de Babinski na criança pela estimulação da planta do pé pelo nariz e barba do mago. Na obra de Rogier van der Weyden (1399 – 1464, pintor holandês), Madona e a Criança, de 1454, a criança parece estimular o próprio sinal de Babinski. Na The Small Cowper Madonna (1505), de Raffaello (1483 – 1520), a Madonna estimula a planta do pé da criança com um dedo, provocando o sinal de Babinski.

Sebastião Gusmão. Eric Morato e Elizabeth Regina Comini Frota
http://www.sbhm.org.br/index.asp?p=noticias&codigo=94

Na Madona e a criança com Sâo Gerônimo e Maria Madalena (1523), de Correggio (1494 – 1534), Maria Madalena elicia o reflexo de Babinski acariciando o pé da criança com o dedo. Em O casamento místico de Santa Catarina (1610), de Rubens (1577 – 1640), a figura maior do barroco do norte da Europa, a criança parece estimular seu próprio sinal de Babinski com um pé tocando a planta do outro.

Em a A virgem e a criança, de Boltraffio (1467 – 1516) observa-se a resposta normal de uma criança ao afagar-se a planta de seu pé. Em A virgem e a criança entre São João Batista e Santa Catarina (1500), de Perugin (1450 – 1523), o sinal de Babinski parece ocorrer espontaneamente. Na Madona del Garofano de Leonardo da Vinci (1452 - 1519), ocorre o sinal de Babinski no pé direito, cuja região plantar toca a almofada (Massey, Sanders, 1989).

Em São Pedro curando a mão paralisada, de Bernardo Strozzi (1581 – 1644), oberva-se mão caída, provavelmente por paralisia radial.

Trinta e um casos de deformações e distúrbios da marcha, muitos provavelmente secundários a doenças neurológicas, são mostrados na Procession of Cripples (1500) de Bosch (1450 – 1516) (Dequeker, Vanopdenbosch, 2001).

Embora Bruegel (1525 – 1569), o maior pintor flamengo do século 16, tenha vivido em pleno florescimento renascentista das cidades flamengas, o universo que elegeu para seus quadros foi o das pequenas aldeias rurais e sua cultura marcadamente medieval. Ele pinta homens e mulheres comuns e narra episódios e situações da vida cotidiana, com uma preocupação pela minúcia.

Na A adoração dos Reis Magos (1564), um dos reis magos (Melchior), portando incenso, apresenta paralisia facial bilateral, ptose parcial e calvice frontal prematura, configurando o quadro de distrofia miotônica (Smith, 1999).
Em 1910 Meige (1866 – 1940), discípulo de Charcot, descreveu a distonia oromandibular e blefaroespasmo.

A pintura O bocejador de Bruegel mostra face de um homem com as pálpebras fortemente cerrada e a boca amplamente aberta. Os historiadores da arte afirmam que esta pintura retrata um grande bocejo. Marsden (1976) creditou a R.E. Kelly a observação da semelhança desta pintura com a síndrome do distonia oromandibular e blefaroespasmo e sugeriu o epônimo de síndrome de Brueghel.

Em A peregrinação dos epilépticos à igreja de São João em Molenbeck (1569), do mesmo Bruegel, está representada a crença em curas ritualísticas, onde as ítimas da “doença das quedas” seriam poupadas de suas crises pelo período de um ano se conseguissem atravessar determinada ponte (Park, Park, 1990)

Serviço de Neurologia e Neurocirurgia do Hospital da Clínicas - UFMG
Serviço de Neurocirurgia do Hospital Luxemburgo – Belo Horizonte
Endereço para correspondência:
Sebastião Gusmão. R. Padre Rolim, 921/21 30130090 Belo Horizonte
e-mail: gusmao@medicina.ufmg.br

Imagem. http://www.poetryresourcepage.com/images/brueghel5.html