sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Desiderato, de Gil Gonçalves


(a
Patrícia Martinelli)

Você está triste
desconsolada
inconfortável
Não encontro mais
os silêncios
dos seus enigmas
olhares
Você está de futuro
amuado
Você está a navegar
longe do mar
na secura do tempo
e do encontrar
olhar
Decerto anseia
medicina para todos os momentos
e estações anuais
sem vendavais
O seu viver está repleto
de sonhos sazonais

Parece tudo composto e ansioso por ventanias, tempestades tão humanas agressivas, de desumanas. E o amor tão fabricado, tão desusado, tão materializado, como os climas, alterado. Como a inconstante perseguição dos gatunos nas ruas feridas, porque já não existe mais pão. Todos finalmente caminhamos para o vão. E nas noites as feras humanas descem dos seus escuros covis e soltam-se, acolhem-se nas iluminadas ruas para resgatarem o que lhes espoliaram. Já não há cidades, agora são agências bancárias e funerárias.

Mas a candura da juventude permanece imutável na entrega, nos encantos da escravidão e dos destinos do amor. E sempre nos esperam íngremes escadarias e portas fechadas no mistério do além das fechaduras. Tanto ruído inventado, inusitado apenas para que os nossos corações desfaleçam no sem tempo da amizade, esta coisa tão descartável. E a vozearia humana que na altitude da amplitude ultrapassa as mais altas montanhas. Fazer ruído também é negócio.

E tantos milhões de pessoas que caminham procurando não sabem o quê. E por ali se ficam na prostração do viverem para consumirem toneladas de sedativos. E as crianças ininterruptamente a chorarem porque as suas mães se esgotaram indefensáveis, na inércia, sem as consolarem.

O nosso pensamento é frequentemente assediado pela mensagem de que é necessário conseguir algo para comer, e prosseguirmos conforme a grande explosão do bigue-bangue. Nascemos de uma explosão, daí o nosso carácter agressivo, bélico.

Continuo na procura incessante por entre incontáveis religiões, qual é a que nos serve, que nos poderá dar alguma utilidade. Mas não sinto alguma diferença entre elas e qualquer ditadura, mas contudo deslumbro-me no encontro com o divino Deus. Ambas têm os mesmos afundamentos e contrições, e o abismo para onde pretendem conduzir-nos já há muito se escavou pela inclemência humana.

Deixa-te cercar pelo verde, ama intensamente as plantas, oferece-lhes a tua melhor amizade. Venera os rios, os mares, as montanhas, as águias, os falcões, e as outras famílias. Deixa-te acariciar pelo orvalho do anoitecer e do amanhecer. Deixa que a chuva escorra pelo teu corpo, sente-te como cascata chuvosa a percorrer os sulcos medianos das folhas em apoteose. Se desejas atingir a plenitude da liberdade, estende a tua alma ao esplendor da libertação da tua natureza e da Natureza.
É este apenas o amor que ainda te resta. Que a tua luta nunca seja uma batalha perdida.