segunda-feira, 13 de julho de 2009

Cidadã morre por lhe negarem assistência em hospital público


(…) Acho que este governo e seus assessores merecem ser destituídos todos eles. –

SEMANÁRIO ANGOLENSE

Palavras de um interveniente no último «Fórum da Rádio Ecclesia», programa da emissora católica angolana aberto à participação popular em directo, que tratou do assunto. O SEMANÁRIO ANGOLENSE retoma-o com a devida vénia A esmagadora maioria dos cidadãos angolanos terá ficado em estado de choque no último domingo após se ficar a saber que uma sua concidadã tinha acabado de morrer, por lhe terem negado assistência num hospital público, precisamente o «Américo Boavida», que é um dos «melhores» que temos no sistema nacional de saúde. Depois de lhe ter sido negada a assistência, Domingas de Sousa Francisco acabaria por falecer na portaria da TPA (Televisão Pública de Angola), onde a mãe recorrera para denunciar o descaso de que a sua filha estava a ser vítima.

Escândalo do grosso. Ou mesmo um crime contra a humanidade? Não é a primeira vez que isso sucede. E decerto que não será a última, tal o estado quase caótico em que se encontra a rede hospitalar pública, que apenas servirá os mais desafortunados, a grande maioria, porque os iluminados, uma minoria, lá sabem como se virar nas clínicas privadas, quando não vão ao estrangeiro até para tratarem de um simples abcesso dentário ou removerem uma unha encravada. E, talvez seja por isto mesmo, que os hospitais do povo estão como estão: com médicos mandriões (não todos) e enfermeiros piores (não todos), além de carecerem até de coisas simples.

Só quem é obrigado a recorrer a eles certamente sabe as peripécias por que se tem de passar para se ser atendido com um mínimo de dignidade. A este verdadeiro escândalo, que é frequente, embora nem todos cheguem ao conhecimento geral e talvez por isso é que não se tem uma ideia exacta da forma desumana com que muitos cidadãos são aí tratados, o ministério da Saúde respondeu com a instauração de um inquérito, blá, blá, blá, que nunca mais tal irá acontecer, blá, blá, blá. Já se advinha que se irá encontrar um bode expiatório para pagar pela demissão do governo em relação aos problemas da saúde. O problema, certamente, não se resolvera com este inqueritozito que se instaurou no «Américo Boavida». Esta muito além da responsabilização da enfermeira que se baldou para o caso da paciente, por não lhe terem dado a gasosa da ordem.

O próprio governo, no geral, por seu lado, terá respondido com a criação, em conselho de ministros, de um serviço de emergências médicas. Contudo, até provas em contrário e pelo que já nos habituou, mais parece uma outra conversa para boi dormir. Diante do caso, que resultou no falecimento da jovem Domingas de Sousa Francisco, a coitada da Mingota, de apenas 20 anos, houve indignação quase geral, como demonstram as declarações dos cidadãos que participaram no último «Fórum» da Rádio Ecclesia, na quarta-feira, que o SEMANÁRIO ANGOLENSE retoma com a devida vénia.

Nzangakami Afonso, desempregado – Isso que aconteceu com esta cidadã de apenas 20 anos de idade, que viu a vida acatar na portaria da TPA, demonstra a falta de credibilidade e um nível de desorganização bastante elevado por parte do Hospital Américo Boa Vida. Isso prova quão reais são as reclamações que a população tem vindo a fazer relativamente a muitas questões que têm sido banalizadas em muitos locais públicos.

Augusto Simão Toko, electricista – Casos deste género só mesmo em Angola e em países onde a sinistralidade é uma prioridade. As pessoas dizem que o país está a crescer, está a desenvolver-se em vários sectores, mas os nossos governantes não mostram isso. Porque, para que haja desenvolvimento, é necessário que primeiramente tenhamos saúde. Mas no nosso país é o contrário: os que se acham donos do país nunca estão atentos com os problemas dos cidadãos. Isso mostra mais uma vez o quanto difícil tem sido difícil para os cidadãos recorrerem aos hospitais públicos. O caso da jovem que perdeu a vida na portaria da TPA só aconteceu por um certo descaso das pessoas que a rejeitaram recebê-la no hospital Américo Boa Vida.

Eduardo Pinto José, taxista
– Eu já presenciei muitas cenas do género em vários hospitais estatais e que culminaram mesmo em morte. Relativamente à jovem que acabou perdendo a vida na portaria da TPA, é de dizer que trabalho de verdade não se vê nestes nossos governantes. Não se acredita nisto. O país é rico e tem tudo para que as pessoas passem por estes caminhos e por estes actos de negligência. É complicadíssimo compreender situações desta natureza num país como Angola, que está atingir patamares muito altos. O governo precisa de trabalhar mais e arduamente, para que situações do género não voltem a acontecer.

Rebeca Tango, empregada doméstica – Desde que se implementou, nos hospitais públicos, as consultas gratuitas, os abusos com os pacientes cresceram consideravelmente em todas as unidades hospitalares da cidade capital. Quando se vai a um hospital público para uma determinada consulta, o indivíduo tem de ir preparado com algumas moedas a mais no bolso. Caso, contrário perdemos o nosso paciente mesmo na portaria.

David Miranda, funcionário público – O procedimento da enfermeira que rejeitou a assistência médica à cidadã de 20 anos de idade é considerado nos pressupostos da lei como uma inconstitucionalidade, porque quebra o princípio do direito à saúde. Logo, é um crime. A senhora deve ser intentada judicialmente. Gostaria que o titular deste ministério levasse a cabo um inquérito para apurar o culpado deste acidente e acompanhar o processo até ao fecho da história.

Ekuikui Lourenço, estudante – O pessoal que rejeitou a assistência médica à menina de 20 anos no Américo Boa Vida teve um procedimento muito desumano ao destratar ou rejeitar a senhora. O hospital não teve uma maior preocupação no caso desta cidadã. E em muitos casos, os recepcionistas e catalogadores também é que têm dificultado as coisas já logo na entrada, onde o segurança cobra um certo valor para comprar um cigarro e, quando se chega no banco de urgência, verifica-se outras manias das enfermeiras. Adicionando estas situações todas com a corrupção, resulta nestes casos mesmo. Mas eu queria aqui ressaltar um pormenor muito importante dentro de tudo isto, que é a vida da pessoa humana que fica em jogo. Haja amor e fé, por favor!

Eliseu Sabino, trabalhador por conta própria – Até agora, ainda prevalece a teoria da gasosa nas unidades hospitalares da nossa cidade. É com muita lástima e angústia que reagi quando me apercebi que alguém tinha perdido a vida na portaria da TPA, por negligência de um ou mais «caturras» que rejeitaram prestar os primeiros socorros à mesma no hospital Américo Boa Vida. Está demais, acho que este governo e seus assessores merecem serem destituídos todos eles. O povo, precisa de um governo mais justo e capaz de resolver os problemas da população na sua maioria. Estamos há sete anos de paz e (já) não temos muitas razões para que fenómenos desta natureza ocorram constantemente no nosso país.

Moisés da Silva, contabilista. – As unidades hospitalares estão sendo construídas com somas avultadas de dinheiro. Médicos de países onde a formação de quadros na área de medicina é uma prioridade, o governo está a contratar. Mas, enfermeiros com uma boa conduta, estes sim, nós ainda não temos. São estes que andam por aí a promover a corrupção em todos os cantos das unidades hospitalares. Isto o governo já tinha de levar a peito há muito tempo. Precisamos melhorar os nossos serviços de saúde.
SA