quarta-feira, 22 de julho de 2009

“Você não está morrendo de câncer — está vivendo com câncer até morrer”


Câncer de cólon avançado

Melinda Beck. The Wall Street Journal

SEMANÁRIO ANGOLENSE

Quando Midge Wilker recebeu o diagnóstico de câncer de cólon avançado, em meados do ano passado, ela não conseguia ir a uma consulta médica sem chorar. A ex-executiva da IBM, que havia aberto sua própria empresa de treinamento gerencial, sentia enjôos e pavor. Os médicos disseram que o câncer havia se espalhado para os ovários, os nódulos linfáticos e possivelmente o fígado. Ela não abriu as persianas de seu apartamento durante semanas. “Todo mundo ao meu redor me falava o quanto é importante ter uma atitude positiva”, diz Wilker, de 64 anos. “Mas não sou Lance Armstrong. Eu queria pular na cova.” Um dia, enquanto fazia quimioterapia no Memorial Sloan-Kettering Cancer Center (MSKCC), em Nova York, Wilker aceitou participar de uma pesquisa que comparava duas diferentes formas de terapia de apoio em grupo.

Perguntada sobre o que esperava ganhar com a participação na pesquisa, ela respondeu: “Preciso achar coragem para enfrentar isso.” O inusitado programa ao qual ela foi aleatoriamente designada tem o objetivo de fazer isso e mais — ajudar pacientes de câncer a encontrar significado, paz e metas de vida, mesmo quando o final se aproxima. “Para muitos pacientes de câncer, o maior desafio é: ‘Como viver no espaço de tempo entre meu diagnóstico e a morte? ‘”, diz William Breitbart, psiquiatra do MSKCC que desenvolveu o programa, conhecido como psicoterapia centrada em significado, que foi testada em mais de 300 pacientes desde 2000. Breitbart baseou seu programa nos textos de Victor Frankl, um psiquiatra austríaco que sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, com a convicção de que as pessoas podem suportar o sofrimento se souberem que suas vidas têm sentido. O programa de oito semanas ajuda pacientes com câncer em estágio 3 ou 4 a se reconectar com as várias fontes de sentido em sua vida — amor, trabalho, história, relações familiares — e os ensina que quando câncer produz obstáculo numa delas, podem encontrar sentido noutra.

“Ajudamos os pacientes de câncer a entender que eles ainda não estão mortos”, diz Breitbart. “Os meses ou anos de vida que restam são tempos potencialmente extraordinários de crescimento.” A maioria dos centros de câncer oferece grupos de apoio e aconselhamento individual aos pacientes. O campo da “psico-oncologia” — que procura cuidar dos aspectos psicológicos, espirituais e emocionais do câncer — está em franca expansão ao redor do mundo. O foco no significado da vida é a originalidade do projeto e ainda está em fase de pesquisa no MSKCC. Mas os primeiros resultados são encorajadores. Num estudo piloto com 90 pacientes apresentado no encontro da Sociedade Internacional de Psico-oncologia, em Viena, no mês passado, Breitbart e seus colegas concluíram que a terapia de grupo centrada em significado aumentou consideravelmente o bem-estar espiritual dos pacientes e reduziu sua ansiedade e desejo de morrer, em comparação com grupos tradicionais de suporte a cancerosos.

A melhora continuou até dois meses depois do fim das sessões. A ideia já está se espalhando. Cinco hospitais na Itália estão reproduzindo o estudo de terapia de grupo de Breitbart. Hospitais na Dinamarca, Alemanha e Argentina estão embarcando em programas similares. Pesquisadores no Canadá adaptaram terapia centrada em sentido de vida para ajudar enfermeiros do hospital a evitar estafa, e criou um programa de sessão única para pacientes terminais. Em Setembro passado, Wilker estava sofrendo demais com a quimioterapia para participar da primeira sessão, na qual os participantes foram apresentados à equipe e receberam o livro de Frankl, “Em busca de sentido”, sobre seus anos nos campos de concentração nazista. A segunda sessão concentrou-se em identidades “BC”, as iniciais em inglês para antes do câncer, e “AD”, de depois do diagnóstico.

Wilker chegou vestindo um abrigo esportivo, sem maquiagem, sem saber se voltaria. “De uma maneira profunda, eles nos fizeram pensar a respeito do nosso passado e do que o câncer nos tirou”, relembra. “Para mim, foi tudo. Eu estava me transformando numa pessoa que eu mesma não reconhecia mais.” Boa parte dos outros membros do grupo havia sido diagnosticada com câncer anos atrás e estava lidando com o retorno da doença. Elas conversavam sobre paixão por teatro, andar de bicicleta e encontrar formas de continuar a desfrutar do que gostavam. “Pensei: ‘Estou vendo tanta coragem aqui. Tenho que me recompor’”, relembra Wilker. As sessões três e quatro foram dedicadas a fontes históricas de significado — como a vida é um legado vivo do passado para o presente e o futuro. Os membros do grupo foram solicitados a reflectir sobre suas famílias, o período histórico em que cresceram — até mesmo a origem de seus nomes.

Wilker se lembrou de momentos em que havia sido corajosa. Ela driblou a hierarquia da IBM para dar uma nota alta a um subordinado recém promovido e confrontou o comandante de uma base militar em que trabalhava. Ela exigiu uma promoção e a conseguiu. “Se o que você procura é coragem, ajuda reconhecer que você fez algumas coisas corajosas no passado”, diz. A quinta sessão tratou das limitações de vida e da mensagem de Frankl de que, mesmo que tudo tenha sido tirado de alguém, esse alguém ainda pode escolher que atitude tomar diante de uma situação e que significado atribuir a ela. Entre as questões discutidas estavam: como você quer ser lembrado e o que seria uma morte com significado? Mesmo para pacientes com câncer avançado, nunca é tarde demais, diz Breitbart, que nota como no livro “A morte de Ivan Ilyich”, de Leon Tolstói, o personagem principal torna-se a pessoa que queria ser e se reconecta com seu filho nos últimos cinco minutos de vida.

As próximas duas sessões focaram as formas de como transcender as limitações impostas pelo câncer. “Você não está morrendo de câncer — está vivendo com câncer até morrer”, diz Poppito. Simplesmente viver a vida pode ter bastante significado. Na sétima sessão, os pacientes foram solicitados a escrever umas listas de coisas que amavam ou consideravam bonitas ou divertidas. Wilker falou sobre o marido, seus 28 sobrinhos e 62 sobrinhos-netos, a espetacular vista de seu apartamento, que ela havia voltado a desfrutar, e a estátua da Vitória Alada, esculpida 300 anos antes de Cristo e exposta no Museu do Louvre. “Eu descobri que não tinha que trabalhar tão duro para encontrar o significado da vida”, diz ela. “Estava ao alcance da minha mão em qualquer lugar que eu olhasse.”

Na sessão final, os membros do grupo apresentam um “projeto de legado” que simboliza o significado que encontraram e querem passar adiante. Poppito recorda que uma mulher que amava Nova York começou a escrever um livro sobre as atrações e os sons da cidade. Outra que sempre quis ir à Itália tomou a decisão de fazer a viagem, apesar do calendário de quimioterapia. Wilker decidiu que o projeto dela seria “ser a pessoa corajosa que minha família e amigos acham que sou”. Ela chegou à última sessão vestida a rigor e carregando uma réplica da Vitória Alada e uma foto da reunião de 50 anos da escola da qual ela participou depois de conseguir se encher de coragem. Não é mais difícil abrir mão da vida quando você tem uma nova apreciação de seu sentido? “É paradoxal”, diz Poppito, “mas se você mostra às pessoas que a vida delas tem importância e vai continuar a importar depois, (...) lhes dá uma sensação de paz.” Com câncer avançado, pacientes buscam razão para viver