sábado, 18 de julho de 2009

TERROR sexual


Terrorismo sexual no Congo
há mais expulsões e crimes que em Darfur
AUTOR: Dominic JOHNSON. Traduzido por Cristina Santos

Na República Democrática do Congo exerce-se uma violência de extrema brutalidade contras as mulheres, sobretudo por parte das milícias ruandesas. Entretanto o mundo observa este genocídio.

Quando chegou à clínica, a mulher levava um saco de plástico. Contou que andava à procura das suas filhas pequenas já há algum tempo. Dirigiu-se ao chefe da milícia na aldeia e perguntou-lhe se ele tinha visto as meninas. Ele riu-se dela e disse: “Comeste todos os dias. Achas que sacrificamos cabras?”, e deu-lhe os ossos. Desde então ela leva no seu saco de plástico os dois pequenos crânios, os restos das filhas.

Outra mulher levantou a saia. Entre jorros de sangue e pus apareceu o filho, estava grávida de seis meses. Tinha sido violada várias vezes por muitos homens. Todo o seu ventre era uma ferida enorme e terrível. O bebé entrou imediatamente na sala de operações. Não sobreviveu.

As cenas que ocorrem no pavilhão para mulheres violadas do Hospital de Panzi, da cidade congolesa de Bukavu, em algumas ocasiões ultrapassam o imaginável. Não são raros os casos de mulheres que, após terem sido violadas, levam um tiro na vagina. Uma mulher foi violada e o marido obrigado a assistir, depois os homens armados despedaçaram o marido vivo e obrigaram a mulher a comer os genitais. “Há dez anos que só consigo dormir com soníferos” – conta Christine Schuler-Deschryver, que se ocupa do pavilhão das mulheres do Hospital de Panzi por encargo da Sociedade alemã para a Cooperação Técnica (GTZ). “Isto não é uma guerra, é terrorismo sexual.”

Os anos de trabalho com mulheres que sofreram brutalidades levaram esta belgo-congolesa, uma mulher alta, antes de presença orgulhosa, ao borde de um colapso psíquico. Não é muito diferente do que acontece à inglesa Lyn Lusi noutra grande cidade no leste do Congo, Goma, que juntamente com o seu marido congolês dirige o hospital DOCS, da organização de assistência norte-americana “Heal Africa”, onde também tem que providenciar constantemente tratamento cirúrgico às vítimas de violação. Quando, com o seu claro e nítido inglês de Oxford, descreve o sofrimento das mulheres, é notório um grande esgotamento e consternação, que se juntam aos problemas de uma vida quotidiana que nunca está garantida na República Democrática do Congo.

A região do leste do Congo, Kivu, é hoje a região bélica em piores condições do mundo, há mais expulsões e crimes que em Darfur. Passaram-se anos até que a violência inumana exercida nesta região pela milícia contra os civis fosse levada em conta internacionalmente. Enquanto no Congo tinha lugar uma guerra interna entre os senhores da guerra, cada um apoiado por um exército estrangeiro diferente, os acontecimentos permaneciam ocultos nos bosques e montanhas pouco acessíveis de Kivu.

No entanto, desde as eleições de 2006, no Congo há oficialmente paz e democracia, por isso o caos em Kivu é um problema que se destaca ainda mais. O Hospital de Panzi, em Bukavu, converteu-se, mais do que o DOCS de Goma, num lugar habitual de peregrinação para os políticos e jornalistas. Hoje em dia não faltam as reportagens, documentários e informações sobre a violência sexual em Kivu. No Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres publicaram-se inúmeras notas de imprensa acusadoras, os remetentes vão desde a Sociedade para os Povos Ameaçados até a deputada da CDU Michaela Noll.

Muitas reportagens centram-se em casos concretos horríveis, nos quais o Congo aparece como o que sempre foi aos olhos da Europa: o coração das trevas, impenetrável e incompreensível. Quando depois destas reportagens, acabado o tratamento, as mulheres voltam às suas casas, é como se as estivessem a mandar de novo para o inferno, onde mais uma vez estarão imersas na violência. Pouco se pode fazer por elas, pensa o consumidor dos meios de comunicação, que não seja dar-lhes atenção médica.

A violação acompanhada das torturas mais brutais é um fenómeno relativamente recente no Congo. Até há dez anos era algo desconhecido. As numerosas milícias do leste do Congo, conhecidas como “Mai Mai”, que utilizam água mágica para ficarem invulneráveis, e que desde os distúrbios dos anos 60 seguem as velhas tradições secretas com os seus rituais e tabus, antes era proibido qualquer contacto sexual: as mulheres eram impuras e as crianças puras, por isso um guerreiro não devia olhar para nenhuma mulher, enquanto que as crianças, ao contrário, podiam ser os melhores guerreiros.

Desde então, todas as partes que combatem no Congo, sejam as milícias tribais ou o exército nacional, usam a violação para mostrar o seu poder e como meio de intimidação. E a maioria dos crimes de guerra sexuais em Kivu – todas as investigações coincidem – são cometidos pelas milícias hutu, do Ruanda. Para lá foram os principais autores do genocídio de 1994, no qual morreram 800.000 pessoas, a maioria tutsis. Após a queda do regime fugiram para o Congo, onde lutaram durante anos ao lado do governo contra os rebeldes da zona leste. Agora o Estado já não precisa deles, e eles formaram o seu próprio Estado dentro do Estado, controlando as minas de ouro e estanho, com campos de treino na selva, cobrança de impostos em mercados e nas ruas e um arsenal impressionante. Organizados politicamente nas FDLR (Forças Democráticas de Libertação do Ruanda), os seus chefes governam no exílio congolês com os mesmos métodos de terror que antes empregavam no Ruanda. Uma boa parte dos combatentes de base são demasiado jovens para terem tido um papel activo no genocídio de 1994, mas os que mandam ainda são dessa época ou foram recrutados por responsáveis do genocídio.

Por isso, há que entender os crimes sexuais no Congo como uma continuação do genocídio do Ruanda. Estima-se que 60% das violações registradas na província de Kivu tenham sido cometidas pelas milícias hutus ruandesas. É uma estratégia que algumas vezes se impõe e outras se elimina, como constata o investigador holandês Hans Romkema, que estudou as milícias in situ. “As FDLR têm uma hierarquia. Quando há um comandante local razoável, a violação é muitas vezes castigada.”

Dado que muitos comandantes das FDLR em Kivu também fizeram parte anteriormente do exército congolês, não é de surpreender que o governo não faça nada contra eles. Além disso, também os soldados governamentais são responsáveis por crimes sexuais. O único grupo no leste do Congo que combate as milícias hutu ruandesas são os rebeldes tutsi congoleses do general dissidente Laurent Nkunda. No entanto, no estrangeiro considera-se que Nkunda, mais do que as FDLR, é o principal obstáculo para a paz no país.

É um escândalo. A comunidade internacional, que hoje lamenta em público sem reservas a sua passividade durante o genocídio ruandês, no Congo permanece agora de braços cruzados perante os sucessores activos daquele genocídio. A ONU continua com a sua política de repatriações “voluntárias” das milícias para o Ruanda. Deste modo, desde 2001 conseguiram afastar do Congo 6.715 combatentes das FDLR, mas o núcleo duro, entre 3.000 a 7.000 homens, permanece lá, e quantos menos forem, mais usam o terrorismo para exercer o seu domínio. Segundo, Romkema, cerca de metade das duas províncias de Kivu encontra-se sob o controlo directo ou indirecto das FDLR e das milícias locais. E um dirigente da organização, sancionado pela ONU, vive na Alemanha com estatuto de refugiado político e apresentou uma acção judicial contra a sua expulsão.

Entender os crimes sexuais no leste do Congo como uma estratégia político-militar, cujos autores têm nome e apelidos, seria o primeiro passo para fazer alguma coisa contra este genocídio. Os amigos dos genocidas entenderam isto antes da comunidade internacional. Esse círculo, que ou nega o genocídio de 1994 ou acusa todos menos os seus autores, agora é apologista do terror sexual no Congo. Um queixa-se que, segundo diz, os Estados Unidos da América obrigaram a ONU a incluir a violação entre os factos a julgar pelos tribunais para crimes de guerra. Outro trata de denegrir o trabalho de Christine Schuler-Deschryver assinalando que parte dos seus antepassados eram colonos belgas, e que ela e o seu marido trabalham para a organização alemã GTZ, quando a Alemanha também é culpada do espólio de minerais no leste do Congo.

São inúteis as tentativas para que se separe a atenção do componente político do terrorismo sexual no Congo. Aos apologistas do genocídio não lhes resta muito tempo. Este mês, os governos do Congo e do Ruanda concordaram com a ONU, os EUA e a União Europeia elaborar, antes do dia 1 de Dezembro, um plano para desmantelar as milícias do leste do Congo por via militar. Que depois se faça realmente alguma coisa, dependerá da pressão da opinião pública internacional. Esta deve entender de uma vez por todas que as crueldades que se cometem contra as mulheres congolesas são um problema que tem solução e não um lamentável fenómeno cultural.

http://www.tlaxcala.es/pp.asp?lg=po&reference=4276
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