quarta-feira, 11 de novembro de 2009

'Supercérebros' mantêm boa memória na velhice



Cecília Minner, JORNAL DO BRASIL

RIO - A perda de memória com o tempo sempre foi vista como um fator inerente ao processo de envelhecimento. No entanto, há pessoas que chegam aos 80 anos com memória afiadíssima, às vezes até melhor do que os que têm quase a metade de sua idade.

http://jbonline.terra.com.br/extra/2008/11/22/e221126892.html

Considerados supercérebros, estes privilegiados mostram-se imunes à formação dos emaranhados neurofibrilares de proteína tau – possíveis causadores da degeneração neuronal.

Divulgado no encontro anual da Sociedade de Neurociência, em Washington, um estudo em fase inicial poderá indicar uma nova abordagem para à prevenção do mal de Alzheimer, se aproveitando de pesquisas sobre estes “superidosos”.

Os emaranhados neurofibrilares são encontrados em quantidades moderadas nos cérebros das pessoas idosas, e em número ainda maior nos cérebros de pacientes portadores de Alzheimer. Por isso, eles são relacionados com a perda da função cognitiva. Este estudo, no entanto, mostra novos dados:

– Estamos vendo que alguns indivíduos são imunes à formação dos emaranhados neurofibrilares e que a presença destes parece influenciar no desempenho cognitivo – afirma Changiz Geula, principal cientista do estudo e professor de neurologia do Centro de Neurologia Cognitiva e mal de Alzheimer, em Northwestern's Feinberg School.

No estudo, os cientistas examinaram os cérebros de cinco pessoas mortas com mais de 80 anos que tinham “supercérebro”, pelo melhor desempenho em testes de memória em relação a outros da mesma idade. Comparados esses cérebros com de idosos mortos “normais”, foi visto que os “supercérebros” tinham menos emaranhados neurofibrilares.

– O baixo número desses emaranhados nos “supercérebros” parece ser a diferença crítica em manter a memória afiada – estima Geula.

Alguns exercícios mostraram porque os “supercérebros” têm um rendimento semelhante ao de pessoas com cerca de 50 anos de idade. Depois de ser contada uma história, por exemplo, eles foram capazes de lembrá-la imediatamente e ainda expor os seus detalhes perfeitamente, 30 minutos depois.

– Existe um segmento da população envelhecida que não só não perde função cognitiva, como a mantém melhor que a maioria – adianta Geula.

Acredita-se que os emaranhados de tau instalam-se no interior das células neuronais, matando-as eventualmente. Porém, ainda não se sabe se são de fato os causadores da degeneração neuronal.

– Não necessariamente a proteína tau é a causadora da perda de função cognitiva, pode ser um marcador natural avisando que está havendo um processo degenerativo, como o Alzheimer – avalia o psicólogo, mestre em neurociências, Leonardo Mascaro. – O estudo é interessante pois a tau poderá indicar a performance cognitiva de uma pessoa.

Já a neurologista, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Ana Lúcia Rosso, sugere que as doenças degenerativas são genéticas.

– As teorias mais modernas indicam que os processos degenerativos estão ligados a um defeito genético, que é manifestado por um gatilho. Mas é ainda uma teoria – conceitua Ana Lúcia.

Para Sergio Ferreira, PHD, professor de bioquímica da UFRJ, a causa da degeneração neuronal está mais evidente, hoje.

– A partir de estudos publicados nos últimos anos, os emaranhados de proteína tau são, na verdade, uma consequência do ataque do peptídeo beta-amilóide aos neurônios. Portanto, é possível que os idosos que não têm esses emaranhados tenham mecanismos de defesa que preservem seus neurônios da degeneração – sugere Ferreira.

– Esse estudo pode revelar formas de protegermos nossos cérebros contra a perda funcional causada pela doença de Alzheimer.

Próximo passo
O cientista Geula disse que o próximo passo da pesquisa compreende as características genéticas e moleculares que tornam o cérebro resistente, para tornar possível proteger os cérebros comuns contra perda de memória.

– Esse estudo vai oferecer uma nova abordagem para estudar o idoso – conclui Geula.