sexta-feira, 1 de maio de 2009

Medicina nos Anos Dois Mil (2)


Por Manuel Luciano da Silva, Médico

Em 1578, o médico inglês, William Harvey, apresentou a sua descoberta da circulação sanguínea, considerada um dos marcos mais importantes no progresso da medicina. Baseando-se na observação muito simples de que o nosso coração, com cada contracção ejecta cerca de 60 centímetros cúbicos de sangue, portanto durante uma hora o coração impulsiona 540 libras de sangue, um peso quatro vezes maior do que o peso de cada pessoa! Portanto só havia uma conclusão a fazer: o nosso mesmo sangue tinha que circular nas nossas artérias e nas nossas veias.

Garcia d'Orta

No século XVII começam a haver mais raios de luz na observação e investigação científica médica. E diga-se em abono da verdade que os médicos judeus sefárdicos portugueses estiveram na vanguarda. O melhor exemplo é o médico Garcia d'Orta, natural de Castelo de Vide, que emigrou para Goa, onde escreveu um livro célebre "Colóquios dos Simples e Drogas e Coisas Medicinais da Índia" no qual ele analisa uma variedade de plantas e a sua influência no tratamento de várias doenças.

Foi Garcia d'Orta que disse que "os portugueses descobriram mais coisas novas num ano do que os romanos em cem"!


Microscópio

Não há dúvida nenhuma que a descoberta do microscópio por Antony van Leeuwenhock, em 1632, em Delf na Holanda, foi a abertura sensacional para os vastos campos da medicina científica!

Leeuwenhock era um amador. Era um funcionário na câmara local. Desenvolveu uma paixão em aperfeiçoar lentes e com muita persistência conseguiu construir um microscópio com a capacidade de magnificar as coisas 270 vezes! Eureca! Foi o primeiro ser humano a ver micróbios vivos, a ver espermatozóides a rabiar e células sanguíneas! Estavam assim abertos para a Humanidade o mundo microscópico vastíssimo e o da verdadeira ciência médica! Só em 1936 é que se veio a descobrir o microscópio electrónico que nos deu a capacidade de ver e magnificar os vírus.

A varíola foi durante muitos séculos um flagelo da humanidade matando muitos milhões de pessoas. Na Inglaterra os vaqueiros observaram que as pessoas que mungiam as vacas e apanhavam a varíola das vacas (muito menos virulenta do que a varíola humana) apareciam com feridas de pus nas mãos, mas nunca contraíam a varíola humana.

Em 1796, o médico Edward Jenner, baseado nesta observação do povo, resolveu fazer a primeira vacinação num rapaz de oito anos usando o pus das pústulas da mão duma pessoa com a varíola das vacas. Passado um mês o médico Jenner inoculou o mesmo rapaz com a varíola humana e o rapaz não apanhou a varíola humana! Estava protegido contra o maior flagelo da humanidade! Um verdadeiro milagre! Nasceu assim a primeira vacina. Por isso o nome "vacina" é derivado da palavra vaca!

Foto: Leeuwenhock com o seu microscópio