quinta-feira, 25 de março de 2010

O Que a Arte Deve à Medicina.


Parece que tudo começou com os egípcios: foram eles, entre os povos da antiguidade os que gozaram maior fama de excelentes médicos. Homero, na Odisséia (IV, 229-231), afirma: “os médicos egípcios são melhores do que todos os outros”; por sua vez, o historiador Heródoto (II, 84), nota que, naquele país, cada médico tratava uma única doença.

Por Armindo Trevisan
http://www.artistanet.com.br/artigos/user_exibir.asp?ID=905128

Eis um prenúncio da especialização! Aliás, conforme outros historiadores, a própria pintura e escultura egípcias revelam uma série de informações sobre a medicina: assim, uma pintura de um túmulo da VI Dinastia mostrou instrumentos cirúrgicos de um oculista.
Que dizer dos gregos? Também eles – que nos legaram o “Juramento de Hipócrates”, repetido por todos os jovens diplomados – mostram nos seus vasos de figuras negras refinamentos de figuração corporal, como é o caso do Exékias, um ceramista famoso do século VI a. C.

Com o advento do Cristianismo, a arte afastou-se do corpo. Privilegiou o símbolo, desenvolvendo uma expressão gráfica dos dogmas da Revelação. Foram 12 séculos de desinteresse anatômico. Em 1215, contudo, dá-se um fato de grandes conseqüências: o Imperador Frederico II autoriza a dissecação de cadáveres. Um pouco mais tarde, em 1300, o Papa Bonifácio VIII (o mesmo que Dante pôs no “Inferno”!) confirma o Imperador, permitindo que membros da Igreja praticassem a anatomia. Foi a entrada triunfal da medicina na Arte.

Veio o Renascimento e, com ele, os famosos afrescos da Masaccio na Igreja do Carmo, em Florença, nos quais, mediante a técnica dos sombreado, o artista consegue representar o volume dos corpos; quase ao mesmo tempo, Pollaiolo realiza os primeiros desenhos a partir de corpos vivos e nus. É célebre o desenho de Leonardo da Vinci em que aparece um feto no ventre de sua mãe. Deveremos, contudo, esperar até 1491, em vésperas do Descobrimento da América, para encontrarmos obras de medicina onde os corpos sejam representados abertos, isto é, com os órgãos à vista. Mais um passo, e Vesalius, o pai dos anatomistas, obriga o ensino artístico das academias a institucionalizar o uso da anatomia, o que ocorreu no século XVII.

Apesar de todos esses progressos, a medicina continuava a viver na “clandestinidade” artística. Foi, então, que surgiram os flamengos, deslumbrando os olhos do público com suas “Lições de Anatomia”, das quais as mais célebres são as de Rembrandt (1632 e 1656). A medicina tornou-se, um tema estético, uma possibilidade de se homenagear o corpo, e os que dele se ocupam.
Faltava, ainda, algo: que um artista entrasse num hospital para aí obter subsídios visuais! Foi o que aconteceu com Géricault, o iniciador do Romantismo juntamente com Delacroix, que lá foi à procura de detalhes para a sua famosa tela, hoje no Louvre: “A Jangada do Medusa , de 1819.

O certo é que a medicina tende a humanizar a Arte. Pensemos em Freud, que pôs a funcionar a caixinha milagrosa do subconsciente e do inconsciente humanos. Não se pode ignorar a revolução que isso significou em termos visuais. Mesmo com o surgimento da Arte Abstrata, em 1910, o corpo não deixou de ser o tema principal da criação artística. Em que sentido, perguntará alguém? No sentido de que o artista contemporâneo, seja minimalista, seja conceitualista, etc., não pode prescindir do seu corpo. Ou, como dizia Chesterton: o tigre pode livrar-se de tudo, menos de sua pele mosqueada... É do corpo que nasce o desígnio (a saber: o desenho!); é dele que escorrem as tintas, é dele que brota a escultura, é dele que emerge a arquitetura, que o abriga e envolve. Se a tarefa da medicina é curar os corpos, a tarefa da arte é favorecer-lhes a cura. Bachelard dizia: as palavras poéticas já são remédios!

Sirva a presente mostra, no Hospital Moinhos de Vento, para revelar-nos artistas médicos, ou ligados à área médica; e também, para uma celebração da medicina, cujas obras-primas, às vezes, não aparecem. A saúde é como os olhos que vêem tudo mas, para se verem a si mesmos, precisam de espelhos. Dos espelhos dos artistas.

Imagem: Van Gogh, The Sower, 1888