sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Nos hospitais de Homoíne e Maxixe. Enfermeiros deixam doentes aos molhos


Inhambane (Canalmoz) – Os doentes que diariamente se deslocam aos centros de saúde de Homoíne e Maxixe, na província de Inhambane, em busca de tratamentos, ficam aos molhos à espera de ordens de serventes e enfermeiros que muitas vezes se entretêm em brincar com telefones ou em conversas entre colegas.
A reportagem do Canalmoz visitou, recentemente, estas duas unidades sanitárias, tendo constatado estes factos. Por exemplo na Maxixe, os pacientes não podiam comprar senhas porque além de bicha do consultório que continuava longa, os serventes estavam embalados em conversas e trocas de mensagens via telemóveis. Em Homoíne, os serviços de Odontologia registavam uma bicha enorme porque o enfermeiro responsável pela extracção de dentes não se fazia a sala há três dias.
“Há duas semanas que não consigo falar com o médico. Esta fila do lado dos bancos de madeira quer ter com o médico que só trabalha uma vez por semana, mas esta é a segunda semana que não vem e não sabemos o que se passa”, desabafou uma paciente que foi transferida de maternidade de Dambo (a16 quilómetros a sul da Maxixe).
Na Maxixe, o Bloco de Consultas Externas funciona com quatro consultórios, mas no dia que a reportagem do Canalmoz escalou o hospital dois consultórios estavam inoperacionais. O terceiro consultório funcionava para doenças gerais, apresentava-se com uma bicha enorme. Soubemos no local que o quarto consultório só abre às quartas-feiras para consultas com o médico, mas curiosamente há duas semanas que o mesmo não abria.
Quando quisemos entender porque é que apenas funcionavam dois consultórios, a resposta foi que os técnicos estavam empenhados na compilação de dados das recém-terminadas campanhas de vacinação.

Venda de senhas
As senhas que dão acesso a salas de consultas, são vendidas ao preço de um metical, de acordo com a ordem da bicha, depois se segue ao pavilhão das consultas. Neste local, volta-se a marcar novamente a bicha. Aliás, na sala de venda de senhas, na bicha havia uma senhora a sucumbir nos bancos e dois adolescentes também deitados nos bancos, mas estes não podiam comprar senhas porque a bicha do consultório continuava longa e os serventes estavam embalados em conversas e trocas de mensagens via telemóveis.
No mesmo instante acabou chegando no local um jovem angariador de clientes na praça da Maxixe, local de trânsito e partida de semi-colectivo de passageiros. O jovem sofreu uma queda em cima de um autocarro quando arrumava as bagagens e sangrava pela cabeça, mas os serventes responsáveis pela venda de senhas continuavam a conversar em linguagens codificadas para que os pacientes não se apercebessem do que se tratava.
Já no Centro de Saúde de Homoíne, a bicha de consultas não era tão longa, apenas a dos serviços de Odontologia é que era enorme, isto porque o enfermeiro responsável pela extracção de dentes não estava no sector do seu trabalho, passavam mais de três dias, segundo os protestos que ali ouvimos. Os doentes que queriam extrair dentes gemiam ante o olhar sereno de outro pessoal hospitalar. O sofrimento alheio ali é um gozo para os funcionários indiferentes.
Ainda nesta unidade sanitária, nas consultas não havia bicha, mas os doentes que se mostravam piores também não tinham atendimento especial, continuavam a dormir nos bancos. Outro aspecto importante é que as visitas neste hospital não observam um horário. Os visitantes que trazem refeições chegam a qualquer hora e como o centro não tem um refeitório, estendem-se esteiras em sombras das mangueiras e tomam-se as refeições. Nos quartos que visitámos, os doentes de nada se queixaram.

Farmácias
Na farmácia da Maxixe, as enfermidades dos pacientes pioravam. Muitos deles disseram que chegaram por volta das 05 horas da manhã e já passavam das 13 horas da tarde. Depois das bichas de senhas, consultório e chegados neste sector marcam outra bicha para comprar medicamentos. Aqui as enchentes eram provocadas por pacientes atendidos nos dias anteriores que vinham ver se os medicamentos prescritos já existiam na farmácia.
Os doentes confidenciaram à reportagem de Canalmoz que, se o medicamento desejado não existir na farmácia do hospital e devido a impossibilidade de comprar fora, deviam recorrentemente e regularmente visitar hospital a fim de verificar se o hospital já dispõe desses medicamentos. É um vai-vem constante sem sucesso a maior parte das vezes. As pessoas sofrem e desesperam.

Em Homoine tudo melhor
Diferentemente da farmácia do Centro de Saúde da Maxixe, em Homoíne, o cenário é outro. Nesta farmácia, não havia bicha, até existem descontos do custo dos medicamentos, por exemplo os doentes crónicos têm um desconto de 80 porcento, 50 porcento para idosos com mais de 60 anos, aposentados e deficientes físicos. Para os estudantes em regime de internamento nas Escola Secundária 25 de Setembro, Escola Básica e Agrária de Inhamússua e Centro de Formação de Professores Primários de Homoíne, os medicamentos são gratuitos.

Pediatria, PAV e maternidade
Os serviços de pediatria, Programa Alargado de Vacinação, (PAV) e a maternidade funcionavam normalmente no Centro de Saúde da Maxixe, pois não havia bichas. As mães que levavam as crianças para pesagem eram imediatamente atendidas. Se as crianças chorassem não era pela morosidade da bicha ou mau atendimento. Na Maternidade, as poucas mulheres grávidas com quem entabulámos conversa, disseram que tudo corria a contento. Mas em Homoíne, o posto do PAV registava uma bicha. Ninguém sabia da enfermeira. As mães murmuravam à espera de pesassem e vacinassem as suas crianças. Coisas mais de pessoas que não cumprem do que por falta de organização.

(Cláudio Saute) 2010-11-26 05:34:00