quarta-feira, 7 de abril de 2010

Os médicos podem ser médicos sem antes aprenderem a morrer?


Por Graça Barbosa Ribeiro
Uma das missões dos médicos é salvar vidas. Mas não deviam também aprender a acompanhar alguém que vai morrer? Parece um contra-senso. Mas, até agora, nas faculdades de Medicina a morte tem sido um tabu Uma das missões dos médicos é salvar vidas. Mas não deviam também aprender a acompanhar alguém que vai morrer? Parece um contra-senso. Mas, até agora, nas faculdades de Medicina a morte tem sido um tabu. Por Graça Barbosa Ribeiro


A Sofia, aluna do 4.º ano de Medicina, foi atribuída uma cama numa das enfermarias dos Hospitais da Universidade de Coimbra. O mais provável era que, ao longo do tempo, passassem por ela vários doentes. Mas não foi o caso. Semana após semana, quando se aproximava para ler o processo clínico e acompanhar a evolução da terapêutica, Sofia encontrava a mesma pessoa. A doente gostava das visitas da estudante; esta afeiçoou-se-lhe "um bocadinho". Atrapalhava-se, é certo. O processo clínico indicava que a doença era grave e Sofia não sabia o que fazer ou dizer.

A história foi contada na primeira pessoa num colóquio sobre a morte. Daniel Serrão, professor de Bioética e Ética Médica, acabara de falar, quando, no momento do debate, Sofia pediu o microfone: "Um dia, cheguei à enfermaria, para a visita habitual, e encontrei a cama vazia e o processo em branco" - prosseguiu. "Não fui capaz de falar com as enfermeiras, não fui capaz de perguntar - não queria ouvir que ela tinha morrido. Recuei e fugi, a correr, do hospital. Tive de pedir a uma colega que fosse saber o que se passara."

Foi pela colega que Sofia soube que a doente estava nos cuidados intensivos e que, no dia seguinte, recebeu a notícia de que ela morrera. Desde então que uma questão não a larga: "Sem passar pela experiência de morrer, como é que eu, como médica, poderei ajudar alguém que vai morrer?"

Sofia não é a única a procurar respostas, mas é das poucas que o fazem em voz alta. "Uma colega nossa desmaiou, nas urgências, quando viu uma pessoa morrer. Outro ficou muito perturbado quando foi ver o processo de um doente para um trabalho académico e percebeu que aquela consulta de oncologia, a que assistira com a descontracção de quem está numa aula, fora, para aquele homem, a última", exemplifica Miguel Cabral, presidente da Associação Nacional de Estudantes de Medicina.

Miguel Cabral considera que aquelas situações devem desencadear o debate sobre a necessidade da formação médica nos domínios da gestão de emoções e da comunicação com pessoas com doenças incuráveis. Pessoalmente, defende-a e pensa, até, que poderão ser as associações de estudantes a promover acções de formação nesses domínios. Admite, no entanto, que há muito caminho a desbravar: "Tal como na sociedade, nas faculdades de Medicina a morte ainda é tabu. Não é vulgar falarmos disso entre nós nem com os professores. Afinal, estudamos para salvar, a morte deve ser a excepção", diz.

Aquela é uma perspectiva que Daniel Serrão confirma, de forma crítica: "Todo o ensino da Medicina está orientado para o diagnóstico e o tratamento de doenças - todas elas curáveis. Se não se curam é porque o médico se enganou no diagnóstico ou errou no tratamento ou o doente foi consultar o médico demasiado tarde", ironiza, para reforçar que "a incurabilidade não é considerada".

Aprender na enfermaria

O neurocirurgião João Lobo Antunes tem uma perspectiva semelhante. "Tenho reparado que a geração mais nova de médicos tem uma grande facilidade em começar e continuar [tratamentos] e uma enorme dificuldade em não começar e interromper. Muitas vezes, isto resulta no prolongamento insensato da agonia através de cuidados intensivos e despropositados", disse, no colóquio. À plateia, formada por muitos estudantes, avisou: "Faz parte das tarefas mais delicadas dos médicos identificar o momento de morrer."

Para que possam fazê-lo, "os alunos devem - aconselha Daniel Serrão - aprender que todas as pessoas morrem de uma doença incurável". E aprender não na aula, mas "na enfermaria, a acompanhar uma pessoa com uma dessas doenças, incuráveis". É que nem sempre se trata de salvar e isso não torna os médicos inúteis durante esse tempo que antecede a morte e a que se chama processo de morrer.

Aquele processo, indica Jorge Espírito Santo, oncologista no Hospital do Barreiro, inicia-se quando os médicos se vêem obrigados a transmitir à pessoa que têm à sua frente que na fase de diagnóstico a doença já é incurável ou que os tratamentos não resultaram. E se a notícia provoca um sofrimento indescritível no doente, o momento é, também, um dos mais dolorosos para o médico, enfatiza o oncologista.

Os imensos progressos no tratamento do cancro (a maior parte tem taxas de cura superiores a 96 por cento) são impressionantes. Mas, ainda assim, insuficientes para impedir que os oncologistas estejam especialmente sujeitos ao síndrome de burnout - um estado de exaustão psicológica e emocional que resulta numa espécie de apatia, de despersonalização, de indiferença. "É incrível que, em Portugal, hoje, os oncologistas não tenham formação específica de base na área da gestão emocional e de comunicação com os doentes, nem disponham de quaisquer medidas de protecção - como o direito a momentos de pausa, a apoio continuado no domínio psicológico, e a espaços adequados de trabalho e de descanso", critica Jorge Espírito Santo.

Depois de mais de 30 anos de experiência, este médico frequentou acções de formação sobre como comunicar más notícias, às quais não pode fugir: "Ainda que a taxa de cura seja muito elevada, é preciso saber como dizer ao doente que tem cancro, para que a informação não seja entendida como uma sentença de morte. E, quando não há esperança de cura, é necessário saber dosear a informação de acordo com a capacidade que o doente tem para a aceitar", explica.

"Alguns dizem que não querem saber, o que, no fundo, significa que já sabem. Outros reclamam que querem saber tudo e, mesmo a esses, tenho de os informar sem os destruir", continua Jorge Espírito Santo. Seja como for, diz, a comunicação da verdade, ainda que nas doses que o doente está disponível para ouvir, não é uma opção: "Não sou o pai, não sou tutor, o mentor ou o guardião do meu doente, não posso escolher por ele, não posso tomar decisões de vida, faz parte dos seus direitos saber o que o espera", diz.

Experiência partilhada

Se ninguém os liberta da tarefa, já a gestão dos tempos, dos gestos e das palavras a que se recorre na comunicação podem e devem ser ensinadas e aprendidas, com vantagens para os médicos e para os doentes, realça Luzia Travado, psicóloga clínica no Hospital de São José, em Lisboa, e uma das pessoas que mais se têm batido para que estas áreas façam parte da formação inicial e contínua dos profissionais de saúde. Pensa que, à semelhança do que se faz noutros países, essa informação deve ser assimilada através de sessões de simulação baseadas em situações reais. Como se faz, exemplifica o enfermeiro João Paulo Nunes, na Escola de Enfermagem São Francisco das Misericórdias, que dirige.

"Os alunos chegam-nos muito novos, muito imaturos no que respeita à exposição ao sofrimento. E a comunicação com o doente, especialmente em situação de vulnerabilidade, não pode ficar dependente da simpatia dos profissionais", considera. Na sua escola, os futuros enfermeiros aprendem técnicas e treinam-nas nas aulas; e nos estágios, se calha a algum dos estudantes contactar com uma pessoa que tem uma doença incurável, a experiência é partilhada e debatida entre todos - na sala de aula, também.

É nesta área que João Lobo Antunes e Daniel Serrão são mais radicais. Querem os alunos nas enfermarias, a acompanharem os doentes que vivem o processo de morrer. "Ali, os estudantes perceberão a importância de ajudar a controlar a dor e de tentar aliviar o sofrimento psicológico do doente, em colaboração com os enfermeiros, os psicólogos, a família e os amigos", fundamenta João Lobo Antunes. Fala de como é fundamental que percebam que "o que têm à sua frente não é um cancro da tiróide metastizado; é uma pessoa, um ser humano, único, com uma dignidade que não se extingue com a doença".

Daniel Serrão explica que só essa proximidade permite a empatia e que "a empatia é essencial para que entre o médico e o doente se crie a confiança que por sua vez é o motor da esperança - seja ela a esperança na cura ou a esperança de que o processo de morrer terá aspectos positivos".

No lugar do doente

Sofia, que fugiu de uma cama vazia, tem a resposta de Serrão à sua pergunta. "Para ajudar a pessoa que está em processo de morrer, o médico não tem de morrer. Aliás, o médico não pode morrer com cada doente seu que morre. Como não pode, por ainda ter medo ou angústia em relação à sua morte, investir em tratamentos fúteis ou inúteis na convicção que eles evitarão a morte do doente."

É por isso, diz Daniel Serrão, que o estudante, como o médico, tem de aprender a colocar-se "na situação do doente, de experimentar a vivência interior que o doente tem do seu estado e de, a partir daí, viver com o doente e nos problemas do doente"; isto ao mesmo tempo que aprende, num equilíbrio precário, a proteger-se "do desgaste emocional excessivo". E isso dói? "Dói", assente Daniel Serrão. "Mas é preciso que o aluno passe por essa dor, um pouco misteriosa, de acompanhar o outro que morre, para que resolva a questão da sua própria morte, fazendo uma espécie de luto antecipado por si próprio."

Neste processo, ensina o professor, o aluno descobrirá que para além de tomarem sempre as decisões mais correctas do ponto de vista técnico, "os médicos podem ser igualmente perfeitos na relação com doentes". E ainda que é isso, essa capacidade de estabelecer uma relação de empatia, "que distingue os bons médicos dos médicos que são apenas competentes".
Imagem: blog.antesdeparis.com.br/category/frases