quinta-feira, 8 de abril de 2010

Vale a pena rir sempre com o navio alcoólico.


Para vós, ofereço-lhes o melhor de todos os remédios: o riso, com os náufragos do álcool. Acho que é melhor começarem a ler. Até já!

«Naufragando em álcool
Orgulho da Aberdeen White Star Line, o clipper Queen of Nations estava abarrotado de finas bebidas em sua viagem para a Austrália. Foi a sua desgraça

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Até a terrível noite de tempestade em que seu capitão foi varrido do convés pelas vagas furiosas para nunca mais ser visto, o clipper Queen of Nations sempre teve um comando competente e cuidadoso. Construído em 1861, o barco era o maior orgulho da frota da Aberdeen White Star Line, empresa especializada em transporte marítimo. E esse orgulho tinha razão de ser: levando carga e passageiros entre Londres, na Inglaterra, e Sydney, na Austrália, durante 20 anos, o navio provocava grande admiração em todos os portos pelos quais passava, por sua velocidade, imponência e manutenção impecável. Tudo nele era de fato harmonioso e belo — dos guarda-mancebos de madeira polida ao casco sempre caprichosamente pintado de verde-aberdeen (um verde-musgo escuro, uma espécie de marca registrada dos navios da empresa), passando pelo mastro imaculadamente branco e pelos intrincados desenhos que decoravam suas laterais.

Mas quando o veterano comandante Donald desapareceu no mar naquela noite tempestuosa de 1879, os diretores da Aberdeen apressaram-se demais em arranjar um substituto para ele e nem sequer tomaram as mais elementares precauções, como examinar com cuidado o currículo daquele a quem iriam entregar o comando do barco. No afã de logo resolverem o problema, acabaram escolhendo um certo capitão Samuel Bache, um notório beberrão, como substituto do irrepreensível Donald. Tal decisão não poderia ter sido mais infeliz, como mostraria a derradeira viagem do Queen of Nations.

Em março de 1881, balançando elegantemente no píer do Porto de Londres, o clipper começava a ser preparado para mais uma travessia entre a Inglaterra e a Austrália, naquela que seria a primeira — e última — missão de Bache. Iniciando o carregamento do navio, a tripulação viu quando o novo comandante e seu imediato chegaram para o embarque. Os marinheiros ficaram atônitos com o estado de embriaguez em que se encontravam os dois oficiais, tão alcoolizados que até precisaram de ajuda para subir ao tombadilho. “Bem”, a marujada deve ter pensado, “nada como uma longa viagem no mar para curar qualquer bebedeira. Já, já, eles estarão tão sóbrios como um peixe.”

Ledo engano. Por uma suprema ironia do destino, os porões do Queen of Nations estavam abarrotados de caixas e mais caixas das mais sofisticadas bebidas — uísques envelhecidos, licores finíssimos, vinhos franceses e milhares de garrafas do mais legítimo rum caribenho — que seriam desembarcadas em Sydney. Tão logo o clipper deixou o porto, Bache e seu imediato não perderam tempo. Desceram ao porão e elegeram as bebidas que lhes serviriam de companhia durante o dia.

E assim foi na viagem inteira. Quando as garrafas esvaziavam, um ou outro descia para fazer uma visita à preciosa carga, voltando para a cabine com os braços sobrecarregados de garrafas dos mais variados formatos e tamanhos. Passavam as noites e os dias apenas bebendo e dormindo. Raramente apareciam no posto de comando ou mesmo no deck. Quando o faziam, estavam sempre cambaleantes, olhos engazeados e cabelos desgrenhados. Grunhiam uma ou outra ordem incompreensível e voltavam rapidamente à cabine e às garrafas.

A tripulação logo percebeu que só mesmo com muita sorte o Queen of Nations conseguiria chegar são e salvo ao seu destino. Era um barco sem comando, em que a tripulação — experiente, mas sem grandes conhecimentos de navegação — dava o melhor de si para conduzi-lo em segurança. Todos os esforços dos marujos foram insuficientes, porém, nas últimas horas do dia 31 de maio de 1881, quando, a alguns quilômetros ao sul de Sydney, o capitão Bache apareceu cambaleante no posto de comando. Mente enevoada pelos densos vapores etílicos, acabou confundindo uma fogueira ao longe, na linha da orla, com o brilho do farol existente na ponta sul da cidade australiana.

Então, equivocadamente ele deu ordem para que o navio virasse em direção da praia. Alguns minutos depois, lá estava o barco encalhado em um banco de areia próximo à costa de Corrimal Beach, em Wollongong.
Sem ter mais o que fazer, a tripulação começou a abandonar o barco antes que as ondas o invadissem. Foi quando o imediato irrompeu no deck curtindo a mais completa bebedeira e ameaçando a todos com uma pistola que empunhava na mão trêmula. Correndo tropegamente de um lado para o outro no tombadilho, o homem gritava que atiraria para matar no primeiro que deixasse o navio, pois não iria aceitar a deserção de nenhuma pessoa. Sem tomar conhecimento das ameaças, no entanto, a tripulação continuou a abandonar o barco com rapidez. O imediato disparou então sua pistola a esmo, sem atingir ninguém. E enquanto ele tentava recarregar a arma sem êxito, tão bêbado se encontrava, a operação desembarque continuou, com todos os marinheiros chegando salvos à praia.

Durante duas longas semanas, o casco do Queen of Nations ainda resistiu bravamente aos choques contínuos das ondas. Depois a persistência do mar venceu e, por fim, o casco rachou, deixando que a água invadisse os porões e carregasse para o mar a preciosa carga de centenas de caixas de uísques, licores, vinhos e rum.

Embora o encalhamento tenha ocorrido numa área remota e na época ainda despovoada, a notícia daquele tesouro alcoólico boiando a poucos metros da praia espalhou-se com rapidez e logo uma multidão vinda de várias milhas de distância apareceu para carregar as garrafas que podia. Era o início da mais longa e selvagem farra de que se tem notícia na Austrália. Segundo os jornais daquele tempo, “uma multidão acampou na praia e permaneceu várias semanas alcoolizada.”

Os acampados criaram um método bastante curioso para roubar a bebida recuperada a muito custo pelas equipes responsáveis pelo resgate da preciosa carga. Colocavam olheiros encarapitados no cimo das árvores mais altas para que de lá eles vigiassem o trabalho dos grupos de salvamento. Então, quando a carga recolhida no mar era colocada a salvo, na areia, os olheiros indicavam o local e a turba atacava com tudo. Até que os oficiais lutavam para conter os roubos, mas era uma tarefa tão inútil como a de tentar conter as ondas do mar. Ainda assim, os tribunais locais logo ficaram apinhados de gente acusada de furto e de perturbação da ordem. Para constrangimento de juízes e promotores, mesmo oficiais de justiça foram apanhados com garrafas nas mãos e levados presos.

Embora interrompidos por várias tempestades, os esforços de salvamento ainda continuaram por dois meses, até o Queen of Nations ficar destruído. Nesta ocasião, a multidão de acampados já estava longe, curtindo no aconchego de suas casas o produto interno líquido das garrafas roubadas, talvez sorrindo, entre um gole e outro, daquele velho ditado (inventado agora): em mar de bêbado, quem tem navio éI náufrago.
TABELA FICHA TÉCNICA
Ficha Técnica
Queen of Nations
Lançamento 25 de abril de 1861
Construção Aberdeen, Escócia
Fabricante Walter Hood
Proprietários George Thompson & Sons, Aberdeen White Star Line
Comprimento 190 pés (58 m)
Boca 32 pés (9,75 m)
Modelo Wooden clipper
Quando naufragou 31 de maio de 1881
Tripulação 28 pessoas»

Imagem: http://vaclavovic.info/foto/_galleries/Fuerteventura-2005/hq/7.jpg