segunda-feira, 30 de julho de 2012

Estas células cerebrais são responsáveis pela consciência?


Nossa história começa no ano de 1926, com o neurologista Constantin von Economo. Ele examinou células neuroniais e encontrou um grupo de células diferentes das outras outras células neuroniais. Em vez do aspecto piramidal, elas tinham uma forma alongada, e eram entre 50% e 200% maiores que as demais células.
A princípio, ele pensou que se tratava de uma patologia, uma doença, mas ao encontrar as mesmas células em outros cérebros, inclusive de animais diferentes, ele chegou à conclusão que deveriam ter alguma função; alguma coisa relacionada ao olfato e paladar, já que eram sempre encontradas nas mesmas duas estruturas envolvidas com estes sentidos.
Mas a época era ingrata: ele não tinha como investigar mais a fundo estas células, portanto voltou-se para outras linhas de pesquisa mais promissoras. Não sem antes dar seu nome às células, os neurônios de von Economo (VEN na sigla em inglês). Oitenta anos depois, os pesquisadores Esther Nimchinsky e Patrick Hof, trabalhando na Universidade Monte Sinai, em Nova Iorque (EUA), se depararam estes estranhos neurônios. E depois de uma década de imageamento funcional e estudos post-mortem, a história destas células está sendo montada.
Algumas linhas de evidências sugerem que elas podem ajudar a contruir a nossa rica vida interior, que chamamos de consciência, incluindo as emoções, nosso sentido de “eu”, empatia, e a capacidade de navegar pelos relacionamentos sociais.
ACC e FI
Antes vamos dar uma espiada na região em que os VENs são encontrados, o Córtex Cingulado Anterior (ACC, de Anterior Cingulate Cortex) e a Ínsula Anterior (FI, de Fronto-Insula). Estas duas regiões apresentam atividade quando percebemos algumas pistas socialmente importantes, como uma cara fechada, um esgar de dor, ou quando ouvimos a voz da pessoa amada.
Quando uma mãe ouve um choro de bebê, a resposta nestas regiões é muito forte. Elas também apresentam atividade quando experimentamos emoções como amor, desejo, raiva ou tristeza. Para o neuroanatomista John Allman, do Instituto de Tecnologia Califórnia em Pasadena (EUA), eles se somam a uma “rede de monitoramento social”, que detecta as pistas sociais e permite que mudemos nosso comportamento de acordo.
Estas duas áreas também parecem exercer um papel importante na rede que mantém um controle subconsciente do que está acontecendo ao nosso redor e direciona nossa atenção aos eventos mais importantes, além d monitorar as sensações do corpo para detectar quaisquer mudanças.
Além disso, as duas regiões ficam ativas quando uma pessoa reconhece seu reflexo no espelho, sugerindo que estas partes do cérebro estão subjacentes ao nosso sentido de “eu” – um componente chave da consciência.
Os VENs podem ser importantes para isto tudo, mas as evidências que os pesquisadores têm ainda são apenas circunstanciais, apesar de importantes. Avançar na compreensão dos VENs envolve encontrar estas células e medir a sua atividade em um cérebro vivo, o que ainda não foi possível.
VENs
No cérebro, maior geralmente significa mais rápido, e como estas células são grandes, existe a suspeita de que elas estejam envolvidas em algum tipo de circuito que envolva a transmissão rápida de sinais importantes. No caso, sinais que estão relacionados à nossa vida social.
As pistas do funcionamento dos VENs pode ser encontrada também nas patologias caracterizadas pela falta ou excesso destas células. De fato, há uma forma de demência que ataca as pessoas com cerca de trinta anos, caracterizada por uma apatia social, ou falta de empatia e autocontrole. Você pode mostrar para estas pessoas uma foto de um acidente horrível e elas nem mesmo piscam. O cérebro dessas pessoas praticamente não tem VENs.
Outro grupo que tem alteração nos VENs são os autistas, que se dividem em dois grupos: os que têm muito poucos VENs e os que têm demais. Esquizofrênicos que cometem suicídios tem também, em geral, muito mais VENs no seu ACC que os que morrem de outras causas.
Outra pista é o comportamento de animais que também têm VENs, como chipanzés e gorilas, elefantes e algumas baleias e golfinhos. Todos são animais que vivem em grandes grupos sociais e apresentam o mesmo tipo de comportamento avançado associado aos VENs nas pessoas. Elefantes mostram sinais que se parecem demais com empatia, pois trabalham juntos para ajudar membros feridos, perdidos ou aprisionados, por exemplo. Mostram até mesmo sinais de tristeza em “cemitérios” de elefantes. Além disso, estas espécies reconhecem a si mesmas no espelho, o que é tomado como um indício de consciência.
Mas os VENs também aparecem em espécies não especialmente sociais, como manatis e girafas. Também aparecem em saguis e outros macacos dos quais não temos certeza se se reconhecem no espelho, embora sejam animais sociais. Uma possibilidade é que a expressão dos VENs nestes animais seja mais primitiva que nos outros mamíferos. Estas diferenças também podem oferecer pistas sobre como estes neurônios evoluíram.
Além disso, os VENs parecem estar associados a julgamentos morais e ao paladar e olfato. Curiosamente, a reação que temos para algo moralmente condenável é muito parecido com a reação a algo que cheira mal, ou tem gosto ruim. Talvez não seja por acaso que dizemos que algo “não cheira bem” quando parece ser algo condenável.
A consciência, um acidente
Entretanto, somente em animais altamente sociais os VENs vivem exclusivamente nas regiões do olfato e paladar. Em girafas e hipopótamos, por exemplo, os VENs parecem estar espalhados por todo o cérebro. Uma compreensão genética da origem destas células pode explicar esta diferença.
Baseados nas evidências que têm, os cientistas acreditam que os VENs dos ancestrais estavam mais espalhados, como no cérebro do hipopótamo, e no curso da evolução eles migraram para o ACC e o FI em alguns animais, mas não em outros. A razão para esta migração é desconhecida; talvez a pressão seletiva que moldou o cérebro dos primatas tenha sido muito diferente da que afetou a evolução de baleias e golfinhos, por exemplo.
Um ponto interessante é que quanto maior o cérebro, mais energia ele consome, então é importante que ele funcione o mais eficientemente possível. Um sistema que monitore continuamente o ambiente e as pessoas ou animais nele teria uma vantagem, permitindo rápidas adaptações a uma situação para economizar o máximo de energia. E o fato que o cérebro está constantemente atualizando esta imagem de “como eu me sinto agora” talvez tenha um efeito colateral interessante: o conceito de que há um “eu” para sentir as sensações. Segundo os cientistas, “a evolução produziu um cálculo muito eficiente de momento a momento do uso de energia e este tem um epifenômeno, um subproduto que forneceu uma representação subjetiva dos sentimentos”.
Se eles estiverem corretos – e ainda há um longo caminho a percorrer antes de termos certeza -, há uma grande possibilidade de que, longe de ser o ápice da evolução do cérebro, a consciência talvez seja um grande acidente.[New Scientist]