sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A Epopeia da Espada


Quando a fome aperta, os lobos descem das montanhas. Os humanos afirmam categoricamente que são animais muito perigosos, que devem ser abatidos. Mobilizam-se esforços, as feras estão esfaimadas, defendem-se para sobreviverem, os humanos também. Estes humanos destruíram o local onde os lobos viviam e comiam. Que diferença há entre os lobos e os humanos? Só uma: os lobos viviam pacificamente antes de os humanos chegarem. Haverá fera mais perigosa que o ser humano? Não, não há!
Qual é a espécie que merece ser extinta? «Os bípedes!». Quais?!

Aqueles que juram quando o anel lhes é colocado no dedo que:
E depois do casamento, das promessas de amor para toda a vida à sua amada, vão exercitar as suas armas nos pobres e indefesos animais para provarem a sua virilidade. Para oferecerem os troféus de caça da inglória infelicidade. Nesse dia pompas e arraiais são lançados. Mais um nobre cavaleiro foi edificado. Os Cavaleiros do Templo rejubilam. Mais uma estátua será erigida. O melhor, o que mais matou, o que mais fome e sofrimento provocou… recebe como prémio uma estátua e uma fundação. Durante mil anos ou mais, os seus seguidores proclamarão que ele inventou o amor. Sangue será derramado, mil vezes incontido. Todos levantarão as suas espadas ao ar e perante juramento dirão: este veio dos céus, e para sempre será abençoado.

Das pedras que restam da Terra surgirá uma espada gigantesca, tão enorme como o Universo, todos a verão. E dirão: que grande raio laser conseguiram para nos distrair. E de repente, depois da grande espada que subiu no Universo, ela desce sobre a Terra e espeta-se no grande Oceano. A Terra fende-se, abre-se em duas e o fim começa. Tudo o que é humano é arrastado, biliões de corpos são engolidos para o abismo. O fim da espécie humana, fim da Criação.

Surgem trovões no céu. Cantam-se salmos. Naves espaciais, os tais discos voadores, sobrevoam o que resta da Terra. Os que foram sempre chamados de Deuses, finalmente cumprem as profecias. Desceram, e aqui estão, aqui chegaram. Apresentam-se de vestes invisíveis, aquilo a que os mortais imploram, vestidos como a neve. Há muito que estavam entre nós, mas cegos como somos, nunca o notámos. Para quê? Pois se apenas nos contentávamos em amaldiçoar, fazer mal! E eles estavam lá… sempre disfarçados na neve.

E nós, na eterna superioridade da raça eleita… recebemos a ordem divina, de exterminar tudo o que estiver ao nosso alcance. E se mais não exterminámos, foi porque não conseguimos, porque já estávamos fartos. Mas havia sempre alguém que não se cansava… esses incansáveis que recebiam as últimas instruções. Umas parcas ou perdulárias moedas eram suficientes, e lá ia o pouco que restava da biologia.

Algumas espécies teimavam em resistir à extinção, como aqueles pobres loucos que ainda teimavam em acreditar no amor. Teimavam na chamada de atenção, imolando-se como Romeu e Julieta. De nada lhes servia, porque era mais um episódio da tragicomédia humana. Os humanos cansaram-se do amor.

A não ser que se ganhasse com isso… que desse para ganhar dinheiro com alguma reportagem de TV em directo. O negócio era mais importante. Daqui os humanos cavaram uma célebre máxima: primeiro o negócio, depois o amor. Vestiram-se, e depois despiram-se quando inventaram a lingerie. Provaram que sem isto não é possível fazer amor. Os fetiches são necessários, para despertar o instinto animal. Nas selvas dos castelos das muralhas humanas, um animal espreita-nos em cada ameia. Dia e noite as setas são lançadas ao acaso. Os opressores resguardam-se, os malfeitores vivem na sua sombra, os esfomeados vivem das setadas. Mas ai dos que escaparem das setadas, porque as infalíveis flechas de Ulisses estão sempre à espera.