sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Viajem ao epicentro da tuberculose resistente. (2)


A tuberculose supõe uma prova para o sistema sanitário de qualquer país
MARÍA VALERIO ELMUNDO.ES
(enviada especial a Tomsk, Rússia).

Alcoolismo

Uma vez vestido, relata as suas sensações aos periodistas de vários países europeus que visitam o centro convidados por iniciativa da Tuberculosis Multirresistente que encabeça o laboratório Lilly (Global MDR-TB Partnership, pela sua denominação em inglês). "Honestamente, senti-me fatal. Pensei que já nunca poderia voltar a correr uma maratona na minha vida", explica aos repórteres. Agora, com 20 quilos menos que quando conheceu o seu diagnóstico, este antigo refinador de petróleo só sonha com percorrer andando uns poucos metros sem dificuldade. Felicita-se de que, ao menos, e pese a que leva quatro anos neste centro, a sua mulher não lhe deixou "como fazem as outras".

Ao seu lado, o doutor Evgeny Nekrasov explica que Vladimir desenvolveu as resistências por incumprir o tratamento. "Porque tomava álcool", acrescenta, fazendo referência a uma das taras sociais que dificultam o controlo da infecção neste país. Na actualidade, recebe dois medicamentos antituberculose aos que está respondendo e dois fármacos mais que reforçam a sua eficácia. O doutor mostra-se optimista sobre o seu prognóstico.

Mais sorte teve Arkady Nalimov, de 47 anos. Era condutor de ambulâncias até que, faz uma semana, disseram-lhe que tinha tuberculose. "Acudi ao médico por um problema na pele, mas devido a que a minha profissão que é o traslado de enfermos pode considerar-se de risco, o meu médico decidiu também mandar-me uma radiografia do peito", relata quase num murmúrio.

"Quase não tive tempo de reagir emocionalmente ao conhecer a notícia, porque em seguida começaram a fazer-me provas", acrescentou mostrando vários dentes de ouro na sua dentadura. Os médicos ainda esperam as análises do tecido pulmonar que lhe extraíram, mas parece que não há bacilo nas suas amostras de cuspo [o que significa que só tem a forma latente]. Provavelmente em três semanas poderá sair à rua e seguir em casa um tratamento antituberculoso que se prolongará durante três meses, segundo prognostica o professor Nekrasov. Teve sorte.

A doutora Galina Yanova, directora deste hospital fundado em 1888 nesta localidade siberiana, explica que neste momento permanecem ingressados no centro 75 pacientes como eles; ainda que pelos seus largos corredores de azulejos cor creme passaram nada menos que 1.000 pessoas desde o ano 2001.

Nas prisões

Muitos deles procedem da prisão próxima de Tomsk, que graças ao programa das autoridades locais, permite que os ex-prisioneiros possam seguir cumprindo o tratamento antituberculoso uma vez que terminam a sua condenação.

"Se não são contagiosos podem seguir trabalhando ao sair do cárcere", explica a doutora Yanova, "podem receber o tratamento no centro de dia. De contrário, ingressam aqui até que deixam de produzir bacilos". Ainda que admite em continuação que não tem nas suas mãos nenhum instrumento legal para obrigá-los a permanecer no centro e tomarem a medicação, o que aumenta as possibilidades de que estas cepas multirresistentes circulem livremente pelas ruas.

Mas também ocorre o contrário. "Nós estamos acostumados a que muitos dos nossos 'clientes' acabem no cárcere por tráfico de drogas; e devem continuar o tratamento ali", reconhece Elena Borsanova, directora da ONG Our Clinic, que ajuda grupos vulneráveis. De facto, ainda que as autoridades russas tratem de consciencializar a população de que a tuberculose é um problema que pode afectar a qualquer classe social, as estatísticas que se manejam em Tomsk contradizem-nas. Cerca de 95% dos pacientes carecem de lugar, 57% são alcoólicos e 37%, condenados anteriores. Ademais, 56% estão co-infectados com o vírus da sida. Assim que, como Yanova aponta, "a tuberculose supõe uma prova para o sistema sanitário de qualquer país".