segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A saga dos superdotados


Seção: Editorias - Categoria: Meio Ambiente
Escrito por Livi Carolina Seg, 19 de Janeiro de 2009 18:37

O país não consegue identificar seus gênios, que sofrem com o desestímulo.

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Quando se imagina alguém com altas habilidades, chamado superdotado, logo vem à mente aquele estereótipo de pessoa tímida, extremamente estudiosa, com dificuldades em relacionar-se e com cara de cientista maluco de filmes infantis.

Seria muito difícil imaginar, por exemplo, uma criança carinhosa, comunicativa, tranqüila, que gosta de estar com os amigos, brincar, nadar... Mas é assim que Letícia*, 6 anos, com idade intelectual dois anos a frente é.

Com apenas 3 anos já era alfabetizada, sabia ler, escrever e falava de forma bem articulada. Porém, a mãe somente notou que a precocidade da filha era sinal de superdotação quando, aos 4 anos, perguntou à professora do ensino infantil: “onça se escreve com ‘ç’ ou ‘s’?”. “Até então, imaginávamos que o fato dela ser precoce era porque a estimulávamos. Mas, não imaginávamos que isso era uma característica da superdotação” – diz a mãe, Sandra Martins*.

Letícia começou a notar a diferença e perguntava para a mãe porque ela sabia ler e os amigos não. Sentia também certa rejeição dos colegas por causa disso e os desentendimentos começaram.

“Essa fase foi bem difícil, porque não sabíamos como lidar com a situação. Nas atividades em dupla, que eram passadas em sala, Letícia tinha como parceira a professora, caso contrário, uma outra criança ficaria reprimida” – destaca Sandra.

A situação escolar de Letícia só foi solucionada quando a professora sugeriu que fosse feita a aceleração, primeiro com tarefas extras, e posteriormente com a mudança para uma turma mais adiantada.

“Foi difícil convencer a diretora da necessidade de passá-la de turma, pois a sua maior preocupação era com a não adaptação, que poderia provocar problemas emocionais. Mas a professora nos ajudou, ela fez um relatório sobre o desenvolvimento e a precocidade da Letícia e mostrou a diretora que, naquele momento, era importante ela ter contato com crianças mais velhas, porque o contrário não estava sendo produtivo” – conta a mãe.

Este ano, Letícia começa a estudar com uma turma um ano mais adiantada e está adorando a novidade.

Falta Estímulo
A pequena Letícia ainda é um caso raro na sociedade, não pelo fato de ser superdotada, mas por estar na lista dos poucos que foram identificados e estimulados pela escola. Segundo o Núcleo de Atendimento ao Aluno com Altas Habilidades/Superdotação (Naah/S), estima-se que 3% a 5% da população sejam superdotados. Porém, no Estado de Paulo, onde o sistema público de ensino tem 5 milhões de alunos, apenas 79 crianças foram identificadas.

De acordo com Maria Clara Sodré, doutora em educação de superdotados pela Universidade de Columbia (EUA), o despreparo na rede de ensino para identificar a superdotação faz com que muitas potencialidades fiquem encobertas, sem chance de se desenvolver. “Mesmo que a criança seja diagnosticada como superdotada, se não for estimulada na sua área de interesse, ela se nivela às outras” – declara Maria Clara.

Muitas dessas crianças são vistas como hiperativas e arteiras, como é o caso do publicitário Evandro Sudré, que por falta de incentivo da escola parou de estudar ainda no primeiro ano do ensino médio. “Fui alfabetizado precocemente pelas minhas irmãs, que eram mais velhas e faziam magistério. Quando cheguei à escola muitas coisas eu já sabia ou aprendia rápido. E como a professora não me passava mais tarefas, ficava agitado e não prestava atenção na aula” – conta Sudré.

Como queria ir além daquilo que aprendia na escola, passou a estudar sozinho, e se descobriu autodidata. “Percebi que tudo o que eu queria aprender, aprendia sozinho” – diz ele.

Freqüentador assíduo de bibliotecas, foi lendo, e fuçando, que se tornou perito em: criacionismo, tema que estudou por quatro anos; missões urbanas e sociologia. Aprendeu a tocar piano, guitarra e bateria. A falar, fluentemente, inglês e espanhol. E se especializou em comunicação e arte.

Hoje, proprietário de uma agência, o publicitário divide seus conhecimentos na área com universitários e é respeitado pelo corpo docente, mesmo com o desconforto de saber que ele não tem graduação superior.

Não fosse seu interesse autodidata em aprender, Evandro Sudré seria mais um jovem de classe baixa, que por não ter sido incentivado, perderia oportunidades.

Características
Segundo Maria Clara, uma pessoa pode ser considerada superdotada quando apresenta: precocidade, dedicação obstinada por tarefas de interesse - ao ponto de até esgotar o assunto, assim com fez o publicitário com o criacionismo, pensamento criativo, ou seja, não se satisfaz com o básico: “porque sim” e alta potencialidade em pelo menos uma das oito inteligências múltiplas (lingüística, lógico-matemática, espacial, musical, sinestésica, interpessoal, intrapessoal e naturalista).

Programa Estrela Dalva
Desenvolvido pelo Instituto Lecca, o programa Estrela Dalva seleciona alunos superdotados de baixa renda, com desempenho lingüístico e matemático, e os prepara para a entrada em escolas e posteriormente universidades federais. “Queremos que eles entrem nas melhores escolas, pois possuem grande potencial para solucionar os problemas das camadas de baixa renda” – ressalta Maria Clara.

LEI Nº 9.394/ 1996
Art. 59. Os sistemas de ensino assegurarão aos educandos com necessidades especiais:
II - terminalidade específica para aqueles que não puderem atingir o nível exigido para a conclusão do ensino fundamental, em virtude de suas deficiências, e aceleração para concluir em menor tempo o programa escolar para os superdotados;

Foram usados nomes fictícios para preservar a identidade da família

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