sexta-feira, 16 de outubro de 2009

A mulher e o crime. O preferido pelas mulheres envenenadoras é, ainda, o arsênico.


Napoleão L. Teixeira. Catedrático de Medicina Legal da Faculdade de Direito da Universidade do Paraná.

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E, dos venenos, o preferido pelas mulheres envenenadoras é, ainda, o arsênico. Por quê? Pela facilidade de sua aquisição, pelo sabor quase imperceptível, por sua côr fàcilmente disfarçável e, finalmente, porque o arsênico, ministrado em doses gradativas, paulatinas, pode passar quase despercebido àquele que o ingere.

Envenenadoras famosas apareceram na história: Locusta, ao tempo de Nero; Lucrécia Borgia e sua famosa" acqua tofanà"; Beatrice de Cenci; Catarina de Médicis; Madame de Montespan; a Marqueza de Brinvilliers; Catarina Voisin; e, recentemente, na França Marie Besnard, mulher que matou dois maridos, seu pai e sua mãe, o sôgro e a sogra, e mais seis parentes e amigos; descoberta, causou surprêsa a revelação –de ser ela uma criminosa, por ser mulher notável por sua bondade, afabilidade, lhaneza de trato, por seu elevado espírito caritativo e por sua grande religiosidade.

Muitas vêzes, a mulher reveste o seu crime de crueldade. Então, ela lança mão do vitríolo – não só para agredir mas para prejudicar: não é só o ânimo de ferir; é, também, e principalmente, o ânimo de deformar. Quando não, essa crueldade assume aspectos de estarrecer: em nossa Capital, não faz muitos anos, uma "garçonette", ralada de ciumes, aproveitando-se da circunstância de o amante dormir de boca aberta, lançou-lhe pela garganta abaixo, um tóxico violento, evirizou-o a seguir e, depois, se matou. Há falar agora, nas passionais, ou rotuladas como tais.

TRISTÃO DE ATAIDE, numa de suas crónicas, chamou atenção para o recrudescimento dos crimes passionais femininos. Demos-lhe a palavra: "Quando éramos estudantes, ríamos daquele conto de AFONSO ARINOS – "A Esteireira" – em que o autor descreve u'a amante enciumada que assassina a rival e bebe-lhe o sangue inda quente e fumegante". Reconhece, melancolicamente, agora, que aquilo que, naquele tempo, parecia impossível, torna-se hoje, triste e dolorosa realidade.

De fato, multiplicam-se aquelas a que LEGOUVÉ chamou sublimes meurtrieres, aquelas a que LEMAiTRE denominou anges de l'assassinato. As mulheres passionais comparecem, cada vez mais, e com frequência cada vez maior, no noticiário da imprensa; e essa imprensa desonesta, essa imprensa" amarela", êsses jornais e revistas sensacionalistas, que fazem de crimes assim o prato predileto de um triste público leitor, público neurótico, ávido de lama, êsses jornais e revistas, são sem dúvida, os maiores responsáveis pela crescente e assustadora difusão dos crimes passionais.

'Famoso, na antiguidade, o caso de Madame de Steinnheil, amante de Faure, que, na França, assassinou, bàrbaramente, seu espôso. Presa e julgada, a essa altura, já era ela uma heroína nacional, tanto a divinisara a imprensa. Quando do seu julgamento, o tribunal, as praças vizinhas, as ruas próximas, estavam apinhadas de povo. Absolvida (e não poderia deixar de o ser, em face daquele clima psicológico), foi uma verdadeira apoteose, tendo sido ela assediada, de imediato, por inúmeros e inflamados admiradores, que queriam casar-se com ela. Escolheu um lord inglês.

O que, depois, aconteceu a êsse lord, é que a história não conta. Houve entre nós, a famosa Aracy Abelha para não falar em outras. Aracy Abelha comete um crime. É endeusada pela imprensa. Seu nome é impresso; sua voz é irradiada; é televisionada; o país se transforma num vasto cenário de novela de rádio. Aracy Abelha é absolvida e tem onde escolher, se quiser, entre dezenas de homens, que, com ela, querem se casar.