sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Respira-se o caos e a incapacidade. Hospital Central de Maputo a braços com a superlotação e desleixo


Doentes internados com patologias diferentes partilham a mesma sala. Alguns estão internados “no chão”… Mas o director Clínico do HCM, Domingos Diogo, diz que é um dos melhores hospitais da África Austral
Maputo (Canalmoz) – O Hospital Central de Maputo (HCM) “abriu” parcialmente as portas aos órgãos de comunicação social para mostrar o seu funcionamento mas não mostraram à Imprensa os departamentos polémicos, como são os casos da morgue e salas de raio X.
No que é o maior centro hospitalar do País há mais problemas do que coisas boas para mostrar.
O caos vai desde doentes internados no chão a outros misturados com tantos outros com patologias diferentes. É normal um doente que sofre de tuberculose estar internado na mesma sala com um outro doente que está internado, por exemplo, vítima de um baleamento.
Segundo a direcção do hospital que mais do que ninguém domina questões ligadas à saúde, a ideia é: “se houver cama vazia num quarto, metemos um doente internado”. É a fórmula que se encontrou para resolver o problema da falta de camas.
No Serviço de Urgências as reclamações de demora no atendimento são a marca registada dos utentes.
Tal como fizemos referência, não tivemos acesso à morgue. Mas as conversas que se desenvolvem entre doentes, funcionários e de pessoas que já tiveram acesso ao local são de arrepiar os cabelos. Aliás, está a circular um vídeo, gravado por um indivíduo que ia à procura do corpo do seu familiar na morgue, que retrata fielmente o tratamento mais precário que se dá aos cadáveres. O horror tem uma explicação. Aqueles serviços foram concebidos para pouco mais de uma dezena de corpos. Mas actualmente chegam a entrar naquele serviço mais de 30 corpos simultaneamente. Resultado: alguns ficam à espera no chão.
Segundo nos foi informado por funcionários daqueles serviços, é preciso fazer lobbies de cunho corrupto para não encontrar um ente querido “conservado” no chão e vulnerável ao “vira-te para cá e vira-te para lá”, quando um familiar estiver para identificar o corpo do seu próximo.

A direcção do Hospital reconhece todos os problemas mas estranhamente não há solução para muitos. Há sim, na linguagem dos gestores do mesmo, “paliativos”. O director Clínico do HCM diz que as reclamações em relação ao funcionamento estão ligadas à relação enfermeiro/médico e o doente. Diz que há questões graves, mas que já estão a ser resolvidas na relação entre os profissionais de saúde e doentes. “Estamos a trabalhar na humanização dos serviços de saúde, principalmente na relação entre os profissionais e doentes. É aqui onde há muitos problemas”.
Em relação à Morgue, o Dr. Fiogo diz que apesar de estar no recinto do Hospital Central de Maputo, os serviços de morgue estão sob alçada do Conselho Municipal de Maputo (CMCM).
“De facto os serviços já não aguentam a demanda. Estivemos lá a fazer o trabalho de levantamento e constatámos que a procura duplica a real capacidade dos serviços”, disse.

Os “troféus” que não colhem consenso

Há muito que se reclama a qualidade das refeições servidas no HCM. Mas o director prefere não falar da qualidade, antes, sim, da quantidade. Diz que o problema de alimentação no HCM já foi resolvido. Ninguém reclama fome porque são servidas quatro refeições diárias, nomeadamente: mata-bicho, almoço, lanche e jantar. “Resolvemos o problema de comida”, disse para depois revelar que o Hospital Central de Maputo é um dos melhores da África Austral.

Mapa de índice de satisfação suspeito

Em vários departamentos que visitámos encontramos um mapa afixado nas paredes, dando conta do índice de satisfação dos utentes em relação aos serviços prestados. Os números não deixam de ser curiosos. Mais de 90 porcento das pessoas que usam o HCM são de opinião de que o hospital presta “bons serviços”, entre opções como bom, mau e péssimo. Desconfiados de que estávamos equivocados na leitura dos gráficos, pedimos ajuda a uma enfermeira para que dissipasse o possível equívoco. Para nosso espanto ouvimos: “Está a ler bem. É isso mesmo. Mais de 90 porcento das pessoas acham que o HCM presta bons serviços”. Não acreditamos, muito em função do que andamos a ouvir dos doentes e a avaliação popular. Levámos a dúvida do “índice de satisfação” ao director Clínico que confirmou a leitura dos 90 porcento de índice de satisfação. Questionámos o paradoxo existente entre a opinião pública e os números internos e a explicação não podia ser mais interessante: “Nós vivemos num País pobre e quando garantimos a refeição para as pessoas já é muito para elas”, disse Diogo. Questionámos sobre a rigorosidade dos critérios internos de avaliação e não tivemos resposta objectiva. (Matias Guente)