quarta-feira, 5 de maio de 2010

O neurologista que virou filme e seus pacientes


O neurologista inglês Olivers Sacks, de 64 anos, é hoje um dos mais respeitados exploradores dos segredos do cérebro. Para quem tem boa memória, Sacks é o médico vivido pelo ator Robin Williams no filme Tempo de Despertar (1990), em que contracena com Robert DeNiro, um paciente que acorda depois de anos de sono profundo.

Fonte: http://www.estado.estadao.com.br/
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Em seu último best-seller, Um Antropólogo em Marte, Sacks narra sete impressionantes histórias de casos clínicos em que predominam deficiências e distúrbios neurológicos. Em todos os episódios, é surpreendente a excentricidade dos processos de adaptação do indivíduo aos novos conceitos de realidade. Há um pintor que passa a ver o mundo em preto e branco aos 65 anos de idade. Há o caso de um jovem que perde a visão e a capacidade de armazenar dados além de poucos minutos.

Nessa dramática história, cujo título é O Último Hippie, Sacks trata de Greg F., um rapaz vítima de um tumor sofre sérias lesões no cérebro. A glândula pituitária e a região do quiasma óptico adjacente são destruídas, em um processo de devastação que atinge ambos os lados do lobo frontal, os lobos posteriores e temporais, além do diencéfalo e o prosencéfalo. Greg perde a noção do que significa "ver" e não admite estar cego. Ao mesmo tempo, perde a capacidade de estocar novas memórias. Intactas permanecem as lembranças do período anterior à doença, especialmente os anos 60, em que o jovem se deliciou com o rock de protesto e seguiu a doutrina de vida do hippies.

Greg tem uma memória que parece funcionar com pilhas cuja energia se esgota rapidamente. Ele se emociona ao receber a notícia da morte do pai. Minutos depois, no entanto, se esquece por completo da informação. Não se trata, evidentemente de um benefício da memória. A cada vez que é confrontado com a perda tudo se repete como se fosse a primeira vez: o choque da notícia, a tristeza aguda e a prostração. Apesar de todas as lesões irreversíveis, Greg parece muitas vezes viver feliz. Faz piadas, canta e brinca com os colegas. Preso em seu mundo de curtas emoções e escuridão, o último hippie criou sua própria realidade, suas formas de perceber o mundo exterior e lidar com ele.