quinta-feira, 6 de maio de 2010

Ver e a ilusão de ver


A visão mobiliza alguns dos mecanismos cerebrais mais complexos. Para que possamos desfrutar do deleite estético oferecido por um quadro de Rafael ou pelas fantasias multicoloridas do Salgueiro, milhões de conexões neuronais são acionadas.

Fonte: http://www.estado.estadao.com.br/
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Ao mesmo tempo, vários centros, extremamente especializados, entram em ação para responder aos estímulos captados pela retina. Cada neurônio está ligado a 15 mil outros e as conexões possíveis chegam à casa dos trilhões, com complicadas operações que se realizam em milésimos de segundo. Todo esse sofisticado sistema ainda não está pronto quando do nascimento do bebê. É preciso que ele aprenda a ver e exercite as conexões internas do cérebro.

A criança que nasce vítima de catarata ou outra obstrução ocular terá sérios problemas visuais no futuro caso não seja tratada de imediato. Se não tiver removido o obstáculo até os seis meses de idade, ficará cega pelo resto da vida. Ao contrário, um homem de 60 anos que tiver passado cinco anos com a visão obstruída voltará a enxergar normalmente depois de uma cirurgia corretiva. Na verdade, boa parte da visão depende de convenções compreendidas internamente pelo cérebro por meio do exercício constante.

A cada estímulo, os neurônios se comunicam por pequenos impulsos elétricos em uma fantástica malha de intrincadas conexões. Se essas conexões não são repetidamente estimuladas nos primeiros meses de vida, quando o cérebro está na fase de formação, acabam se atrofiando e morrem.

Vários subsistemas se unem para dar ao homem, internamente, a ilusão de que pode captar toda a realidade com seus olhos. Entre os pré-socráticos, Empédocles se dedicou a estudar o mistério dos olhos e, assim, escreve: "O fogo primitivo escondeu-se em membranas finas e tecidos, atrás das redondas meninas dos olhos, varadas de passagens maravilhosas. Afastam as águas profundas que as cercam e deixam passar o fogo, por ser mais fino e sutil."

Segundo o grego, o interior do olho é de fogo e seu exterior é feito de água e terra. O olho seria como uma lanterna à noite, o fogo protegido da água por uma película ou vidro. Por meio do fogo, veríamos os objetos brilhantes. Por meio da água, enxergaríamos o que fosse opaco e sombrio. O semelhante vê o semelhante.

O que surpreende nos estudos de Empédocles é que já imaginava a existência de subsistemas da visão. O fogo que vê as coisas brilhantes e a água que decodifica as imagens opacas e sombrias. Os modernos estudos em pacientes com lesões cerebrais, mostra que há áreas dedicadas a aspectos específicos da visão. Alguns setores, por exemplo, ocupam-se exclusivamente de detectar os movimentos dos objetos. Problemas nessas áreas impedem o indivíduo de perceber a aproximação dos carros quando atravessa a rua.

A estrutura parece ser tão complexa que guarda até um arquivo específico para o conceito de visão. Pessoas vítimas da Síndrome de Anton tornam-se cegas mas não se queixam ou fazem relatos de seus problemas. Simplesmente, não sabem que estão cegas. No momento da lesão, toda a estrutura da consciência é remodelada.